Para CHIPKEVITCH (1987) não se
pode falar da adolescência sem falar do corpo, pois é nesta fase da vida que o
corpo sofre as mais profundas e rápidas modificações, e adquire um significado especial e por vezes conflitivo.
“As intensas transformações físicas e biológicas desta idade influenciam todo o
processo psicossocial da formação da identidade do adolescente” (CHIPKEVITCH,
1987)
Este
autor refere que a puberdade feminina costuma iniciar-se entre os 10-11 (variando
entre 9-14) anos de idade, e a
masculina por volta dos 11-12 anos (variando entre 10-15) E que entre os medos
e preocupações mais comuns nesta fase apontados por Chipkevitch, está o excesso
de peso entre as meninas, e entre os meninos, a força muscular.
GOWERS e SHORE (2001) abordam que a
adolescência é vista como o estágio de grande risco para o desenvolvimento dos
transtornos alimentares devido à convergência de mudanças físicas e
psicológicas que ocorrem neste período; e as preocupações com a obesidade
parece estar aumentando entre as crianças em idade escolar, especialmente nas
meninas, e tem se mostrado associada com baixa auto-estima corporal.
COOPER
& GOODYER (1997) apontam que a
importância das preocupações com a forma e o peso do corpo é uma característica
patognomônica de transtornos alimentares. O estudo destes autores sugere que
estas preocupações podem surgir bem cedo nas meninas, por volta dos 11-12 anos
de idade Seus estudos mostraram uma prevalência de 18,9% da presença de
preocupações significativas com peso e forma do corpo entre meninas de 11-12
anos de idade. Estes autores abordam que embora este resultado possa parecer
alto, de fato não o é, tendo-se em vista os resultados encontrados em um estudo
de Oxford, com mulheres entre 16-35 anos de idade em que a proporção foi de
25%.
DIETZ (1997) aponta que os dados de pesquisas
sugerem que a probabilidade de persistência da obesidade, e em conseqüência, a
probabilidade de consequências adversas da obesidade no adulto, pode ser
relacionada à idade de início. Alguns
períodos parecem constituir períodos específicos do aumento de risco. Estes
incluem o período pré-natal, o período
que denomina adiposity rebound entre
os 4-5 anos de idade, e o período da adolescência. Este autor aborda que os
mecanismos destes períodos que promovem o aumento do risco da persistência da
obesidade e suas complicações ainda são pouco compreendidos, apesar da
obesidade neles presente parecer estar associada a um aumento do risco da
persistência e da doença subsequente. Acrescenta ainda que aproximadamente 30%
da obesidade em mulheres de 36 anos de idade pode ter origem no período da
adolescência, enquanto que nos homens, somente 10% da obesidade presente até os
36 anos começa na adolescência.
CHIPKEVITCH
(1987) refere que na puberdade as
modificações corporais são tão intensas e rápidas que escapam ao controle do
adolescente, transformando, em poucos anos,
seu corpo de criança em um corpo de adulto. E a experiência de ver seu
corpo mudando rapidamente sem que possa controlar, gera com frequência, um
sentimento de impotência e de passividade. A sensação de não poder fazer nada
frente às modificações corporais, provocam medo e ansiedade, às vezes tão intensos que alguns adolescentes chegam
a viver esta fase de forma persecutória com
somatizações destes sentimentos, deslocando-os para o plano físico
(CHIPKEVITCH, 1987).
ESCRIVÃO
et al. (2000) referem que
a adolescência é um período crítico para iniciar ou agravar obesidade
preexistente, devido ao aumento fisiológico do tecido adiposo que ocorre
principalmente no sexo feminino, maior consumo de fast-food e pelas
instabilidades emocionais frequentes neste período.
GOWERS & SHORE (2001) apontam que a
adolescência é uma fase complexa do desenvolvimento na qual convergem um grande
número de mudanças físicas e psicossociais. E as exigências desta etapa podem
ser tão duras para muitos e ter um
impacto significativo na auto confiança e auto estima. Estes autores colocam
ainda que as mudanças psicossociais no início da puberdade trazem
vulnerabilidade ao jovem.
Para ABERASTURY (1990), a modificação corporal é a essência da puberdade, e "o desenvolvimento dos órgãos sexuais e da capacidade de reprodução são vividos pelo adolescente como uma irrupção de um novo papel, que modifica sua posição frente ao mundo e que também o compromete em todos os planos da convivência". Esta autora acredita que as primeiras mudanças corporais provocam ansiedade no adolescente, que diante disto pode fazer uma fuga progressiva do mundo exterior e buscar um refúgio em seu mundo interno.
O
DSM-IV (APA, 1994) cita entre as categorias diagnósticas de Transtornos
Alimentares, no apêndice B, uma categoria mais recente: o Transtorno da
Compulsão Alimentar Periódica-TCAP (Binge
Eating Disorder) como uma nova categoria diagnóstica que ainda requer
maiores estudos e que se caracteriza por episódios de compulsão alimentar, em
que o paciente ingere uma excessiva quantidade de alimento num pequeno período
de tempo, acompanhado de uma perda de
controle sobre seus impulsos para comer e intenso desconforto e autocondenação
pela excessiva ingestão de alimento.Estes episódios de compulsão alimentar são a
característica central do transtorno.
APPOLINÁRIO
(2002) refere que:
o
projeto inicial do DSM-IV incluia a categoria diagnóstica do transtorno do
comer compulsivo como um terceiro transtorno alimentar. Na versão definitiva,
os autores resolveram, no entanto,
deixar no capítulo de transtornos alimentares somente a anorexia nervosa, a
bulimia nervosa e os transtornos alimentares sem outras especificações, mas
mantiveram a categoria diagnóstica do transtorno do comer compulsivo com seus
critérios diagnósticos específicos no Apêndice B da classificação. O
estabelecimento destes critérios possibilitou a utilização do conceito na
prática clínica e tem estimulado a pesquisa nessa importante área-limite entre
os transtornos alimentares e a obesidade.
"A delimitação do conceito do Transtorno
da Compulsão Alimentar Periódica mostrou-se de grande utilidade clínica,
diferenciando-se um subgrupo de pacientes obesos com características
psicopatológicas específicas". (PAPELBAUM, APPOLINÁRIO, 2001).
A
compulsão alimentar, traduzida do ingles "binge
eating", no indivíduo obeso foi descrito pela primeira vez em 1959 por
Stunkard (YANOVSKI, et al. 1993). Desde
então ela vem sendo verificada em muitos indivíduos obesos que têm sérias
dificuldades em controlar o comportamento compulsivo de comer. A expressão “binge eating” não tem tradução exata para o português. O termo “binge” no inglês é usado para designar
uma noção de excesso, e a expressão toda acabou sendo traduzida no português
como compulsão alimentar periódica. Seu uso técnico tem se baseado em dois
elementos principais: o excesso ao alimentar-se e a perda do controle.
CORDÁS
(2001) aponta que a anorexia nervosa
afeta cerca de 0,5% das mulheres (crescendo entre homens), a bulimia nervosa,
de 1% a 2% e o transtorno do comer
compulsivo está presente em 2% a 3% da população geral e em torno de 30% dos
obesos em tratamento.
Outros
estudos, (YANOVSKI et al.1993; APPOLINARIO et al. 1995; FREITAS et al. 2001)
também têm confirmado que aproximadamente 30% de indivíduos obesos que buscam
programas de emagrecimento apresentam transtorno da compulsão alimentar
periódica.
MATTOS
et al. (2002), apontam resultados de pesquisa com pacientes
obesas, encontrando uma frequência de
36% de transtorno de compulsão alimentar periódica (TCAP), e 54% de
compulsão alimentar periódica (CAP) nestes pacientes; diferenciando o transtorno de compulsão alimentar do episódio de
compulsão alimentar. O episódio foi avaliado a partir do um questionário (QEWP-R)
para compulsão alimentar e considerado quando os sujeitos mencionavam a
ingestão, num curto período de tempo (2 horas ou menos), de uma quantidade de
comida claramente maior que a maioria das pessoas consumiria em um tempo
similar, acompanhado de um sentimento de perda de controle durante esta
ingestão. O diagnóstico de transtorno
de compulsão alimentar foi considerado
quando a frequência dos episódios ocorria pelo menos duas vezes por semana, num
período de 06 meses, associado a um
forte sentimento de angústia, e três ou mais dos critérios descritos pela DSM
IV para este transtorno.
Se
30% da população de obesos pode apresentar o transtorno de compulsão alimentar
periódica, este pode ser um indicativo de que tal transtorno é uma
significativa alteração do comportamento alimentar e pode ser de grande
valia para o estudo da obesidade.
Segundo
o DSM-IV (1994), as características diagnósticas essenciais para o Transtorno
de Compulsão Periódica
são
episódios recorrentes de compulsão alimentar periódica, associados com os
indicadores subjetivos e comportamentais de prejuízo no controle e sofrimento
significativo relacionado aos ataques de hiperfagia, na ausência do uso regular
de comportamentos compensatórios inadequados (...) característico da Bulimia Nervosa. As características de um
episódio de compulsão periódica são discutidas no texto para Bulimia Nervosa.
Onde diz que:
Uma
compulsão periódica é definida pela ingestão, em um período limitado de tempo,
de uma quantidade de alimento definitivamente maior do que a maioria dos
indivíduos consumiria sob circunstâncias similares... Um episódio isolado de
compulsão periódica não precisa ser restrito a um contexto. Por exemplo, um
indivíduo pode começar um episódio em um restaurante e continuá-lo ao voltar
para casa.
Refere
ainda que:
O sofrimento acentuado exigido para o
diagnóstico inclui sentimentos desagradáveis durante e após os episódios de
excesso alimentar, bem como preocupações acerca do efeito a longo prazo dos
episódios repetidos de compulsões alimentares periódicas sobre o peso e a forma
do corpo.
No
DSM-IV os critérios para o diagnóstico
de transtorno de compulsão periódica indicam:
A. Episódios recorrentes de compulsão periódica. Um
episódio de compulsão periódica é caracterizado por ambos os seguintes
critérios:
(1) ingestão,
em um período limitado de tempo (por ex., dentro de um período de 2 horas), de
uma quantidade de alimento definitivamente maior do que a maioria das pessoas
consumiria em um período similar, sob circunstâncias similares.
(2) um
sentimento de falta de controle sobre o consumo alimentar durante o episódio
(por ex., um sentimento de não conseguir parar ou controlar o que ou quanto se
está comendo)
A. Os
episódios de compulsão periódica estão associados com três (ou mais) dos
seguintes critérios:
(1) comer muito mais rapidamente do que o normal
(2) comer até sentir-se incomodamente repleto
(3) comer
grandes quantidades de alimentos, quando não fisicamente faminto
(4) comer
sozinho, em razão do embaraço pela quantidade de alimentos que consome
(5) sentir
repulsa por si mesmo, depressão ou demasiada culpa após comer excessivamente
B. Acentuada
angústia relativamente à compulsão periódica
C. A
compulsão periódica ocorre, em média, pelo menos 2 dias por semana, por 6
meses.
D.
A compulsão periódica não está associada com o uso
regular de comportamentos compensatórios inadequados (por ex. purgação, jejuns,
exercícios excessivos), nem ocorre exclusivamente durante o curso de Anorexia
Nervosa ou Bulimia Nervosa.
APPOLINARIO
(2002), destaca o "ataque de comer" (tradução sugerida para o termo
"binge eating") como o episódio central do transtorno do comer
compulsivo. e aponta que alguns autores consideram a perda de controle como
critério mais importante que a quantidade de alimento ingerida, e que quanto
maior a gravidade dos ataques de comer, maior o grau de obesidade. Evidencia
ainda que os pacientes com Transtorno do Comer Compulsivo apresentam alterações
importantes do comportamento alimentar,
têm uma maior preocupação com a forma e o peso corporal, apresentam maior
comprometimento no trabalho e nas relações sociais e, com maior frequência, um
outro diagnóstico psiquiátrico em comorbidade.
Estudo
anterior como de APPOLINÁRIO, et al.
(1995) já apontava conclusões semelhantes. Revisando a literatura encontram que
obesos com compulsão alimentar apresentam um início mais precoce da obesidade,
se comparados a obesos sem comportamento compulsivo e que "pacientes obesos com comportamento compulsivo alimentar
perdem uma maior quantidade de peso durante regimes dietéticos muito
restritivos. De maneira contrária, também são os que ganham peso com maior
facilidade no período de seguimento"
(APPOLINÁRIO, et al. 1995).
STUNKARD, e SOBAL
(1995) apontam que indivíduos que apresentam o
BED
(binge eating disorder) tendem a abandonar tratamentos para perda de peso, com
mais frequencia e recuperar o peso perdido mais rapidamente que indivíduos
obesos sem o transtorno. Indicam também que obesos com compulsão alimentar
costumam apresentar mais distúrbios psicológicos que obesos sem compulsão
alimentar, incluindo depressão, ansiedade, e comportamentos obsessivos.
YANOVSKI, et al. (1993),
apresentam estudos de associação entre o transtorno alimentar e comorbidade
psiquiátrica em obesos, encontrando uma correlação de risco altamente
significativa entre a presença de compulsão alimentar e outras desordens
psiquiátricas como depressão maior, transtorno do pânico, transtorno de
personalidade borderline, e outros transtornos de personalidade. Indicam ainda
que quanto maior a compulsão alimentar, maior o comprometimento psíquico.
McELROY et al. (2002), buscam a correlação
entre o transtorno bipolar e obesidade, e encontram entre as variáveis
significativas associadas com o alto índice de massa corpórea (IMC) e o
transtorno bipolar, a presença da compulsão alimentar.
Dados
semelhantes foram encontrados por WERUTSKY e BARROS (2000), na revisão de
vários estudos de indivíduos obesos com TCAP: maior oscilação de peso e maior
prevalência de transtornos psiquiátricos, além da recuperação mais rápida do
peso emagrecido. Apontam que o TCAP é visto como um mecanismo de defesa e
reparação no intuito de evitar ou aliviar sentimentos de solidão, fracasso e
abandono e que é comum encontrar em pacientes obesos atitudes de submissão à
figura materna, que impulsionam ao comer e ao engordar, "rejeitando
qualquer outro tipo de satisfação" (WERUTSKY e BARROS 2000). Muitas vezes o engordar pode representar um
objeto de amor, equivalente ao seio materno; e a compulsão ao comer por sua
vez, "pode estar relacionada à ausência, à perda ou à vivência de destruição
desse objeto materno, utilizando-se uma técnica regressiva oral para garantir
sua incorporação".
WERUTSKY e BARROS (2000) destacam no
relato de pacientes com TCAP, um sofrimento intenso pelo fato de comer
compulsivamente sem controle, mesmo sem fome. Estes episódios costumam ser
ativados por sentimentos de depressão ou ansiedade buscando um alívio da tensão
na hiperfagia. "Outros sujeitos descrevem uma qualidade dissociativa nos
episódios de excesso alimentar, com uma sensação de `torpor´ ou de estar
`aéreo´". Muitos indivíduos comem o dia todo sem qualquer planejamento.
Ressaltam ainda a importância da ação precoce nesses transtornos e a
necessidade do atendimento psicoterápico
individual ou grupal, além da necessidade, em alguns casos, da medicação
com inibidores seletivos da recaptação da serotonina. Salientam também a
importância de um enfoque terapêutico abrangente direcionado à pessoa que sofre
com o TCAP.
Estudo mais recente (PINAQUY et al. 2003) com
mulheres francesas obesas preocupou-se
em avaliar o comer emocional ("emotional eating") associado
ao transtorno de compulsão alimentar. O
comer emocional foi relatado como uma tendência a comer excessivamente
em resposta a emoções difusas ou negativas. E de acordo com seus resultados, o
comer emocional foi um predisponente significativo do transtorno do comer
compulsivo.
Estes
diversos estudos salientam com muita evidência a necessidade compulsiva de
comer aliada a necessidades emocionais. O comer para muitos obesos dos estudos
aqui indicados, assim como o comer compulsivo parece estar em grande
porcentagem ligado a fatores emocionais que determinam este comportamento e que
vão muito além da simples necessidade fisiológica de satisfazer a fome.
ISNARD, et al. (2003) apontam também que os
resultados de seu estudo confirmam estudos anteriores de que a sintomatologia
de compulsão alimentar pode ocorrer precocemente no período adolescente e que é
frequente nesta população.
MARCELLI & BRACONNIER (1989) e BATTISTONI
(1996), apontam como uma outra conduta alimentar que se mostra bastante
frequente no adolescente obeso o que chamam de “beliscagem" que se caracteriza por comer o dia todo, fora das
refeições, e acompanha as atividades do sujeito e, em geral, envolve alimentos
que estão à mão e não necessitam de preparo, como salgadinhos, biscoitos,
doces, chocolates, etc.
Esta
conduta também pode ser acompanhada do ato frequente de abrir a geladeira e
buscar algo para comer, independente de se estar com fome. Este é um
comportamento invariavelmente citado pelos sujeitos dos grupos de obesos. Às
vezes abrem e fecham a geladeira sem achar nada para comer. Mas o comportamento
de ir até lá e procurar algo é constante, e acontece várias vezes no dia. E
mais constante ainda o de abrir a geladeira e "beliscar" alguma
coisa.
O DSM-IV porém considera que "o ato de ingerir continuamente pequenas quantidades de comida durante o dia inteiro não seria considerado uma compulsão periódica."