CAPÍTULO IV - ANSIEDADE
Segundo
MILLER DE PAIVA (1989) o termo ansiedade, juntamente com outras palavras como
angustia, aflição, raiva derivam do mesmo termo “amhs” do sanscrito antigo que significa tristeza, dor. E seu
correspondente em latim seria ”anger” que tem o sentido de estrangulação, angústia;
e que foi uma tradução livre de Freud do termo em latim, que deu origem ao
termo inglês (anxiety)
ansiedade.
Em
Conferência XXV FREUD (1973) usa o termo “angst” em alemão, para designar
ansiedade, derivado de “angustiae” do
latim, que quer dizer estreitamento, e que para Freud este termo acentua a
característica de limitação da respiração, comparando com o sentimento do
bebê no instante do nascimento. FREUD
descreve uma ansiedade real e uma ansiedade neurótica. A ansiedade real ou
normal é a que se apresenta como algo muito racional e compreensível, podendo
ser definida como uma reação natural à percepção de um perigo exterior, isto é,
de um dano esperado e previsto. Esta reação aparece ligada ao reflexo de fuga e
pode ser entendida como uma manifestação do instinto de conservação. E este
estado ansioso que leva a uma ação é útil e vantajoso para o indivíduo. A
ansiedade neurótica, por sua vez, trata-se de uma reação a um perigo não real,
que Freud aponta como um estado geral de ansiedade, em que as pessoas
atormentadas por esta ansiedade, prevêm sempre as eventualidades mais
terríveis, vêm em cada sucesso acidental o presságio de um infortúnio e se
inclinam sempre ao pior quando se trata de um fato inseguro. Para Freud (1973)
“A tendência a esta espera de um infortúnio é um traço de caráter próprio de
grande número de indivíduos que fora isto não apresentam, nenhuma
enfermidade”.
Estudo de JORN et al.
(2003), avaliou a associação entre
sintomas de ansiedade e depressão com a obesidade, e apontam níveis maiores de
depressão e ansiedade nas mulheres obesas que nas não obesas; mais que na
população masculina, onde esta associação está mais presente em relação aos
sintomas de depressão e menos de ansiedade.
Estudo anterior (MATTOS et al. 2002) aponta uma alta frequência de
episódios de compulsão alimentar periódica, sintomas depressivos graves, e
ansiedade, em pacientes com obesidade severa. Foram encontrados sintomas
depressivos em 100% dos pacientes avaliados,
e ansiedade-traço em 70% , ansiedade-estado em 54%, sendo que a
frequência de transtorno de compulsão periódica, foi maior nos pacientes com
alto grau de ansiedade como traço de personalidade, do que enquanto estado de
personalidade.
Outro
estudo, ISNARD, 2003) com adolescentes com obesidade moderada e severa indicou
uma consistência positiva na relação entre a compulsão alimentar (avaliada pela
ECAP) e medidas psicológicas de ansiedade (avaliada pelo IDATE - Children) e
depressão. Por outro lado, encontraram uma correlação negativa entre a
compulsão alimentar e dimensões de auto-estima e satisfação corporal nos mesmos
adolescentes. Estes estudos demonstraram que, a sintomatologia da compulsão
alimentar, tende a crescer com o aumento do nível de depressão e ansiedade e o
decréscimo do nível de auto estima. As duas variáveis: depressão e ansiedade
estavam significativamente associadas com compulsão alimentar.
Um
aspecto interessante observado nestes estudos foi que os adolescentes com uma
longa duração de obesidade eram menos deprimidos e ansiosos e tinham maior
auto-estima que os adolescentes que eram obesos há menos tempo. Por outro lado,
não foi encontrada nenhuma relação significativa entre a duração da obesidade e
gravidade da compulsão alimentar. Da mesma maneira, a dimensão da compulsão
alimentar não se mostrou correlacionada com a gravidade da obesidade: obesidade
severa não implicou em forte sintomatologia de compulsão alimentar.
Estes
mesmos estudos indicam que os adolescentes obesos que procuram tratamento para
perda de peso podem ter uma marcada sintomatologia de compulsão alimentar e
severa angústia psicológica, particularmente em relação à ansiedade. Concluem
ainda que a ansiedade e depressão podem ser as dimensões mais importantes especialmente
associadas com compulsão alimentar em adolescentes de obesidade severa que
buscam tratamento.
Estes
estudos confirmaram também que a sintomatologia da compulsão alimentar pode
ocorrer durante o período da adolescência numa proporção de 20% da população
adolescente obesa, em níveis moderados
a severos de compulsão alimentar. Relatam que esta proporção é relativamente
baixa comparada a outro estudo citado
por ISNARD et al. (2003) que encontrou
uma ocorrência de 30% de transtorno de compulsão alimentar em adolescentes,
usando critérios diagnósticos do DSM-IV, numa proporção semelhante ao
encontrado em estudos com adultos. Outra semelhança dos resultados de estudos
com adultos apontado por ISNARD et al. é a forte associação encontrada entre
transtorno de compulsão alimentar e dimensões afetivas como depressão e
ansiedade .
BATTISTONI
(1996), em um dos capítulos de sua dissertação discorre sobre "O significado do alimento"
evidenciando que o alimento pode representar algo muito valioso e essencial à
vida, além de sentimentos diversos como amor, segurança, satisfação, alívio de
tensão.
Certos
indivíduos obesos buscam no alimento a compensação para problemas e
dificuldades de ordem emocional. Alimentam-se em excesso, para satisfazer
necessidades afetivas, compensar frustrações, combater a depressão e o
sentimento de solidão, descarregar a raiva ou fugir de sentimentos
desagradáveis como o tédio, a preocupação, a culpa, a vergonha, a falta de
esperança que decorrem de conflitos intrapsíquicos. (BATTISTONI, 1996 p.109).
Parece que o alimento talvez possa assumir significados diversos para o sujeito, que vão muito além do satisfazer uma simples necessidade de sobrevivência.
OBJETIVOS
O
objetivo deste estudo é pesquisar se adolescentes obesos apresentam transtorno
de compulsão alimentar periódica, e se existe alguma relação entre este
transtorno e a ansiedade nestes sujeitos.
Interessa-nos
investigar o sintoma de ansiedade que aparece com tanta frequência
na queixa dos obesos e ao qual atribuem o comportamento de comer em excesso.
Hipóteses -
H0
– Pacientes com compulsão alimentar têm tanta ansiedade quanto os que não têm
compulsão.
H1 – Pacientes com compulsão alimentar têm níveis diferentes de ansiedade daqueles que não têm compulsão.
METODOLOGIA
CASUÍSTICA
Os
sujeitos desta pesquisa são adolescentes entre 11 e 18 anos que procuram o
programa de Medicina Preventiva da
UNIMED Regional da Baixa Mogiana, Moji Mirim/SP, com o intuito de realizar um
tratamento de perda de peso.
Neste estudo utilizamos dois grupos de
adolescentes obesos:
Grupo A - Indivíduos obesos ou com
sobrepeso com TCAP
Grupo B - Indivíduos obesos ou com
sobrepeso sem TCAP
Fatores
de Inclusão
Para
todos os grupos, os fatores de inclusão foram:
1) Idade
entre 11 e 18 anos, de ambos os sexos.
Esta faixa de idade foi escolhida por
apresentar abrangência de todo o
período considerado adolescência, e principalmente por atingir a puberdade onde
autores como CHIPKEVITCH (1987), COOPER & GOODYER (1997), GOWERS &
SHORE (2001) apontam, como de grande importância para o subsequente processo de
desenvolvimento do adolescente, em virtude do início das mudanças corporais.
Estes autores salientam as preocupações significativas desta idade com a forma
e o peso do corpo, que são relevantes para este estudo.
2) IMC de sobrepeso ou obesidade considerado de acordo com a tabela de Cole et al. (2000), Quadro 2.
|
Quadro N° 2 -
Valores de IMC para sobrepeso e obesidade agrupados por sexo e faixa etária |
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Idade (Anos) |
IMC (Sobrepeso) |
|
IMC
(0besidade) |
|
|
|
Masculino |
Feminino |
Masculino |
Feminino |
|
2 |
18,41 |
18,02 |
20,09 |
19,81 |
|
2,5 |
18,13 |
17,76 |
19,80 |
19,55 |
|
3 |
17,89 |
17,56 |
19,57 |
19,36 |
|
3,5 |
17,69 |
17,40 |
19,39 |
19,23 |
|
4 |
17,55 |
17,28 |
19,29 |
19,15 |
|
4,5 |
17,47 |
17,19 |
19,26 |
19,12 |
|
5 |
17,42 |
17,15 |
19,30 |
19,17 |
|
5,5 |
17,45 |
17,20 |
19,47 |
19,34 |
|
6 |
17,55 |
17,34 |
19,78 |
19,65 |
|
6,5 |
17,71 |
17,53 |
20,23 |
20,08 |
|
7 |
17,92 |
17,75 |
20,63 |
20,51 |
|
7,5 |
18,16 |
18,03 |
21,09 |
21,01 |
|
8 |
18,44 |
18,35 |
21,60 |
21,57 |
|
8,5 |
18,76 |
18,69 |
22,17 |
22,18 |
|
9 |
19,10 |
19,07 |
22,77 |
22,81 |
|
9,5 |
19,46 |
19,45 |
23,39 |
23,46 |
|
10 |
19,84 |
19,86 |
24,00 |
24,11 |
|
10,5 |
20,20 |
20,29 |
24,57 |
24,77 |
|
11 |
20,55 |
20,74 |
25,10 |
25,42 |
|
11,5 |
20,89 |
21,20 |
25,58 |
26,05 |
|
12 |
21,22 |
21,68 |
26,02 |
26,67 |
|
12,5 |
21,56 |
22,14 |
26,43 |
27,24 |
|
13 |
21,91 |
22,58 |
26,84 |
27,76 |
|
13,5 |
22,27 |
22,98 |
27,25 |
28,20 |
|
14 |
22,62 |
23,34 |
27,63 |
28,57 |
|
14,5 |
22,96 |
23,66 |
27,98 |
28,87 |
|
15 |
23,29 |
23,94 |
28,30 |
29,11 |
|
15,5 |
23,60 |
24,17 |
28,60 |
29,29 |
|
16 |
23,90 |
24,37 |
28,88 |
29,43 |
|
16,5 |
24,19 |
24,54 |
29,14 |
29,56 |
|
17 |
24,46 |
24,70 |
29,41 |
29,69 |
|
17,5 |
24,73 |
24,85 |
29,70 |
29,84 |
|
18 |
25 |
25 |
30 |
30 |
|
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Fonte |
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Cole,
T.J.; Bellizzi, M.C.; Flegal, K.M.; Dietz, W.H. Establishing a standard
definiton for child overweight and |
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obesity worldwide: international survey.British
Medical Journal 320, 2000: 1240-3. |
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Fatores de Exclusão
Para
ambos os grupos os fatores de exclusão foram:
1) Distúrbios
endócrinos. A presença de distúrbios endócrinos e outros quadros clínicos que
podem acarretar obesidade como hipotireoidismo, era pesquisada durante a
triagem prévia e excluídos para a pesquisa.
2) Outros
transtornos mentais associados como: transtorno obsessivo-compulsivo,
transtorno de ansiedade, transtorno de humor e retardo mental.
MÉTODO
Neste
trabalho utilizamos uma das formas de avaliação de peso mais conhecida e aceita
pela OMS que é o Índice de Massa Corpórea (IMC). E para a classificação deste
índice em crianças e adolescentes utilizamos uma tabela apresentada por COLE,
et al. (2000), específica para faixa etária de 02 a 18 anos.
COLE, et. al. (2000), a partir de estudo
realizado com 192.727 crianças e adolescentes, representativo dos países
Brasil, Inglaterra, China, Holanda, Singapura e Estados Unidos, apresentam uma
tabela de valores de referência de IMC para sobrepeso e obesidade agrupados por
sexo e faixa etária. (Quadro 2)
INSTRUMENTOS
Os instrumentos utilizados na pesquisa foram:
-
IMC – Índice de Massa Corporal – Respeitando a
classificação para
adolescentes de
COLE et al. (2000)
-
Escala de Compulsão Alimentar Periódica (ECAP) -
padronizada, já traduzida e validada para o português (FREITAS, et al. 2001). (Anexo
I)
-
Entrevista para a identificação do Transtorno da Compulsão
Alimentar Periódico, segundo critérios do DSM-IV. (Anexo II).
Inventário de Traço-Estado de Ansiedade – IDATE (SPIELBERGER et a.l. 2003) (Anexo III)