Neste caso o autor deixa claro que tanto a compulsão a roubar amigos da irmã como a compulsão para se alimentar são manifestações da mesma "voracidade excessiva" que é tratada por ele como um sintoma da ansiedade primitiva do bebê.

Num outro caso do mesmo texto Winnicott mostra uma mudança de comportamento alimentar como sintoma de distúrbios de apetite na perturbação psicológica, em que estaria envolvida a mudança de comportamento de uma inibição do apetite para uma compulsão ao comer. Winnicott inicia assim o relato: "Esta é uma breve descrição do caso de um menino que passou de inibido a voraz".  Refere-se a um garoto de 15 anos de idade, com muito bom nível intelectual, que começa a apresentar distúrbios de caráter na adolescência, manifestando comportamento agressivo e destruidor. Winnicott ressalta: "O ponto de maior interesse aqui é que, junto com esta mudança de caráter, também ocorreu uma total mudança, a inibição da voracidade transformando-se em glutonaria. Na época das mudanças de caráter, começou a engordar, depois de sempre ter sido magro, tendo adquirido um apetite mais do que saudável, com alguma compulsão a comer em demasia".  (Winnicott, 1993).

O que surpreende Winnicott neste caso, é que até os doze anos este menino tinha apresentado uma inibição para alimentar-se, demonstrando total desinteresse por comida; e em dado momento, seu comportamento transforma-se no oposto, passando a apresentar um interesse excessivo por comer. O autor parece deixar evidente que tanto a inibição de comer como a compulsão para comer seriam manifestações de uma ansiedade primitiva, originada no início de vida do bebê em suas primeiras relações com a mãe e o ato de ser alimentado.

Embora nosso estudo não apresente dados que nos permitam sugerir estas relações, as considerações de WINNICOTT, 1993; BATTISTONI, 1996; VIUNISKI, 1999; PARIZZI & TASSARA, 2001; nos levam a refletir a respeito desta associação entre ansiedade e compulsão alimentar, e do possível início precoce desta associação na vida da criança, no seu relacionamento com a mãe.

 Podemos supor que muitas vezes a ansiedade que se origina nas primeiras semanas de vida, possa acompanhar o sujeito em vários aspectos de sua vida futura, passando o sujeito a ter, como citou FREUD (1973) a tendência a ver fatos acidentais como possíveis infortúnios, a estar  acompanhado sempre de uma “espera ansiosa” como se algo ruim sempre estivesse para acontecer,  e esta ansiedade constante transformar-se num “traço de caráter”,  segundo Freud.

De que exatamente se trata esta ansiedade, como se origina, a que mecanismo psíquico inconsciente está ligada, e a que tantos sentimentos ou estados emocionais se está chamando de ansiedade, são questões que nos surgem em decorrência de nosso estudo e de todas estas observações. A avaliação da ansiedade-traço, assim como a ansiedade-estado neste estudo não tem o propósito de responder a estas questões que,   porém, a nosso ver merecem a tentativa de serem percorridas e melhor pesquisadas em outro estudo.

De qualquer maneira, os achados desta pesquisa podem  ser valiosos enquanto alerta de que existe de fato uma sensação emocional incômoda, desconfortável, sofrida a que se está chamando de ansiedade e que aparece associada ao Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica, e que de acordo com a literatura aqui já apontada, são fatores de risco para a saúde mental do jovem obeso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


CONCLUSÃO







 

CONCLUSÃO

 

 

“Na história de todos os tipos de casos psiquiátricos pode-se encontrar perturbações do apetite, que podem estar claramente entrelaçadas aos outros sintomas.

Um contato clínico direto com crianças pequenas fornece uma oportunidade rica para observação e terapia, e para a aplicação de princípios aprendidos através da análise de crianças e adultos.

A teoria da doença psiquiátrica deve ser modificada para levar em consideração o fato de que, em muitos casos, a história de uma anormalidade tem suas raízes nos primeiros meses ou  mesmo primeiras semanas de vida. “

                                                           WINNICOTT   , 1993

 

 

  É preciso salientar que algumas limitações deste estudo exigem cautela na interpretação dos seus resultados. Por se tratar de um estudo de delienamento transversal e do pequeno tamanho da amostra torna-se reduzida sua potência estatística e a validade externa dos seus resultados, impossibilitando a generalização das conclusões para toda a população adolescente obesa. Apesar disto, ele pode ser uma contribuição significativa para o entendimento do Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica, tendo-se em vista ser esta uma categoria que ainda requer maiores estudos com pequeno número de estudos existentes a respeito do TCAP e ansiedade em adolescentes obesos.

          Os resultados encontrados nesta pesquisa indicam que a ansiedade-traço é um

sintoma psíquico que se mostrou significativamente associado ao TCAP e à obesidade nos adolescentes obesos pesquisados. Esta ansiedade-traço pode indicar um traço de personalidade do indivíduo, e, portanto, os adolescentes com traço de personalidade mais ansioso, ou que respondem com maior constância de maneira ansiosa às questões de sua vida, tendem a comer mais compulsivamente e a serem mais obesos. Estes dados podem indicar que a ansiedade e o comportamento do comer compulsivo são fatores de risco que precisam ser considerados no atendimento clínico de adolescentes obesos  e na atenção à prevenção da obesidade e transtornos psíquicos.

A partir dos resultados semelhantes ao de outros estudos, é interessante

questionar se a ansiedade pode ser um fator predisponente do Transtorno de Compulsão Alimentar, ou se ela, existente de alguma maneira já no indivíduo, se intensificaria e se manifestaria com constância, diante da convivência com o Transtorno de Compulsão Alimentar.   De qualquer forma, a presença do TCAP é um fator de alerta para a saúde futura do adolescente, e para o prognóstico da obesidade e seria um direcionador da prioridade no tratamento da obesidade do adolescente, visto que a realização de dietas restritivas  podem ser infrutíferas como indica a literatura abordada, se a compulsão alimentar se mantiver.

         Este estudo evidenciou, assim como em outros da literatura, a correlação entre ansiedade, transtorno de compulsão alimentar e obesidade em adolescentes obesos. E foi possível refletir, também à luz da literatura, que esta correlação pode iniciar-se muito cedo na vida do sujeito. É interessante lembrar que não nos parece serem suficientes as evidências dos estudos para se entender o drama de um adolescente obeso com TCAP. Em cada pessoa as associações levantadas neste estudo acontecem de forma única e certamente de maneira mais complexa do que o aqui esboçado. Mesmo diante das  evidências de um diagnóstico em semelhança a uma população inteira, acreditamos ser necessário que cada paciente seja sempre visto de maneira nova,  única e interligada `a sua história de vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


ANÁLISE ESTATÍSTICA







 

 

ANÁLISE ESTATÍSTICA

 

Para a comparação das variáveis foram utilizados métodos estatísticos não paramétricos, tendo em vista a grande variabilidade dos dados obtidos. Foi utilizado o teste não paramétrico de Man Whitney para se comparar uma variável categórica com uma variável contínua como IMC e idade com grupo com TCAP e sem TCAP; sexo com ansiedade (contínua) por grupo. O teste não paramétrico de Kruskal Wallis foi usado para comparar variável contínua com variável categórica quando envolveu mais de duas categorias, como Ansiedade (contínua) com ECAP.

O coeficiente de correlação de Spearman foi utilizado para comparar duas variáveis contínuas como IMC e idade com ansiedade (contínua), por grupo. O teste exato de Fisher foi utilizado na comparação de 02 (duas) variáveis categóricas quando o valor esperado foi menor que 5(cinco), como na comparação entre ansiedade (categórica) por grupo e idade por grupo.  Na comparação entre sexo por grupo, foi usado o teste Qui-Quadrado, pois o valor esperado foi maior que 5 (cinco).

Para se verificar a concordância do instrumento ECAP com o diagnóstico de TCAP, considerado padrão-ouro, foi utilizado o coeficiente Kappa e calculado os valores de especificidade, sensibilidade, valor preditivo positivo, valor preditivo negativo e acurácia. Para todos os testes foi considerado um nível de significância de 5% (p-valor < 0,05).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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