PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

 

 

Maria Helena Siqueira Sprovieri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estresse, Alexitimia e Dinâmica Familiar do paciente autista:

 

um estudo comparativo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Março/1998

 

 

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

 

 

Maria Helena Siqueira Sprovieri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ESTRESSE, ALEXITIMIA E DINÂMICA FAMILIAR DO PACIENTE AUTISTA:

 

UM ESTUDO COMPARATIVO

 

 

 

 

 

 

Tese apresentada como exigência parcial para a obtenção do grau de doutor em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob a orientação do Prof. Dr. Francisco B. Assumpção Júnior

 

 

 

 

 

 

 

Março/1998

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para Renato,

 

Renato Jr.

 

e Marcos

 

 

 

que, com suas presenças amorosas,

foram fonte de motivação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Siqueira Sprovieri, Maria Helena

Estresse, alexitimia e dinâmica familiar do paciente autista: um estudo comparativo / Maria Helena Siqueira Sprovieri - São Paulo : s. n., 1998.

     143 f. ; 21,59 x 27,94 cm

Tese (Doutorado) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Área de concentração : serviço social

Orientador : Francisco B. Assumpção Jr.

 

 

Palavras chave : Estresse, Alexitimia, Família, Autismo


 

                                                                                                     Pag.

INTRODUÇÃO  .................................................................................................       1

      Autismo  ..................................................................................................       7

      Déficits no autismo: cognitivos ou afetivos?  ...................................................     14

      Teoria afetiva  ..........................................................................................     14

      Teoria cognitiva  .......................................................................................     16

      Família  ....................................................................................................     19

      Família e saúde mental  ...............................................................................     25

      Família e autismo  ......................................................................................     31

      Objetivos  ................................................................................................     40

 

Capítulo I:  MATERIAL E MÉTODOS  .....................................................................     42

      Comunicação  ...........................................................................................     45

      Regras  ....................................................................................................     46

      Papéis  ....................................................................................................     46

      Liderança  ................................................................................................     47

      Afetividade  ..............................................................................................     47

      Expressão física  ........................................................................................     47

      Agressividade  ...........................................................................................     47

      Interação conjugal e familiar  .......................................................................     48

 

Capítulo II:  RESULTADOS  ................................................................................     52

      2.1.  Estresse  ..........................................................................................     54

      2.2.  Alexitimia  .........................................................................................     74

      2.3.  Dinâmica familiar  ................................................................................     77

 

Capítulo III:  DISCUSSÃO  .................................................................................     79

      3.1.  Estresse  ..........................................................................................     80

      3.2.  Alexitimia  .........................................................................................     93

      3.3.  Dinâmica familiar  ................................................................................   100

 

CONCLUSÕES  .................................................................................................   122

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  ..........................................................................   129

 

ANEXOS  .......................................................................................................... 144

 

 

Figuras

 

        1   A teoria afetiva  .................................................................................     16

        2   A teoria cognitiva  ...............................................................................     18

 

Quadro

 

  1  O continuum autístico de Wing  ....................................................................     13

 

 

 

Tabelas

 

  1  Estresse: mãe. Comparação de famílias com crianças assintomáticas x autistas (fase de alerta)            54

  2  Estresse: mãe. Comparação de famílias com crianças assintomáticas x autistas (fase de resistência)               54

  3  Estresse: mãe. Comparação de famílias com crianças assintomáticas x autistas (fase de exaustão         55

  4  Estresse: pai. Comparação de famílias com crianças assintomáticas x autistas (fase de alerta)              55

  5  Estresse: pai. Comparação de famílias com crianças assintomáticas x autistas (fase de resistência)      56

  6  Estresse: pai. Comparação de famílias com crianças assintomáticas x autistas (fase de exaustão)          56

  7  Estresse: mãe. Comparação de famílias com crianças autistas x síndrome de Down (fase de alerta)        57

  8  Estresse: mãe. Comparação de famílias com crianças autistas x síndrome de Down (fase de resistência)           57

  9  Estresse: mãe. Comparação de famílias com crianças autistas x síndrome de Down (fase de exaustão)             58

10   Estresse: pai. Comparação das famílias com crianças autistas x síndrome de Down (fase de alerta)        58

11   Estresse: pai. Comparação de famílias com crianças autistas x síndrome de Down (fase de resistência)            59

12   Estresse: pai. Comparação de famílias com crianças autistas x síndrome de Down (fase de exaustão)               59

13   Estresse: mãe. Comparação de famílias com crianças assintomáticas x síndrome de Down (fase de alerta)        60

14   Estresse: mãe. Comparação de famílias com crianças assintomáticas x síndrome de Down (fase de resistência)           60

15   Estresse: mãe. Comparação de famílias com crianças assintomáticas x síndrome de Down (fase de exaustão)             61

16   Estresse: pai. Comparação de famílias com crianças assintomáticas x síndrome de Down (fase de alerta)          61

17   Estresse: pai. Comparação de famílias com crianças assintomáticas x síndrome de Down (fase de resistência)             62

18   Estresse: pai. Comparação de famílias com crianças assintomáticas x síndrome de Down (fase de exaustão)               62

19   Estresse: comparação pai x mãe nas 45 famílias (fase de alerta)  .......................     63

20   Estresse: comparação pai x mãe nas 45 famílias (fase de resistência)  .................     63

21   Estresse: comparação pai x mãe nas 45 famílias (fase de exaustão)  ...................     64

22   Estresse: famílias com crianças autistas (fase de alerta)  ..................................     65

23   Estresse: famílias com crianças autistas (fase de resistência)  ...........................     66

24   Estresse: famílias com crianças autistas (fase de exaustão)  .............................     67

25   Estresse: famílias com crianças assintomáticas (fase de alerta)  .........................     68

26   Estresse: famílias com crianças assintomáticas (fase de resistência)  ..................     69

27   Estresse: famílias com crianças assintomáticas (fase de exaustão)  ....................     70

28   Estresse: famílias com crianças com síndrome de Down (fase de alerta)  ..............     71

29   Estresse: famílias com crianças com síndrome de Down (fase de resistência)  .......     72

30   Estresse: famílias com crianças com síndrome de Down (fase de exaustão)  ............   73

31   Alexitimia: autistas  ....................................................................................     74

32   Alexitimia: assintomáticos  ...........................................................................     75

33   Alexitimia: síndrome de Down  ......................................................................     76

34   Autistas x famílias assintomáticas  ................................................................     77

35   Autistas x síndrome de Down  ......................................................................     77

36   Síndrome de Down x assintomática  ...............................................................     78

 

 

In this study 15 families with autists, 15 with Down’s syndrome and 15 asymptomatic children with patients ranging from five to 15 years of age were evaluated.

The parents of these three families’ groups were appraised in regard to their stress level, alexithymia and family dynamics, to relate those symptoms to the functioning of an autist family, in a comparative study.

Details were provided of the families, the overall autistic features, the autist’s family, the family and the mental health, their limitations and difficulties throughout the vital cycle.

An attempt was made to locate the stress and the difficulty of verbalizing affections as factors that aid the family in hindering the healthy emotional development of its members.

The field research was achieved by use of the following instruments: the family dynamics were evaluated by E.F.E. (Carneiro, 1983); the stress, by the inventory of stress symptoms (ISS) and the Toronto alexithymia scale (T.A.S.).

The data gathered was compared statistically x2 and Wilcoxon test) to verify similarities or differences between the groups studied as concerns family dynamics, stress and alexithymia.

Considering the family population studied (n = 45), it was found that the autists' families and victims of Down’s syndrome made it difficult to sustain the emotional health of group members, with the autists having the largest percentage, the parents of the two groups display stress, but the women with statistically more significant scores. In the autists' relatives both parents display alexithymia, but in the victims of Down’s syndrome the parents do not display the problem.

The conclusion was that the autist's family dynamics caused difficulties to the emotional health of the group’s members, his parents displayed stress, with the mother having the most significant scores but similar in the two groups, with both (father and mother) displaying alexithymia.

 

INTRODUÇÃO

 

        O estudo da dinâmica familiar, por ter exercido sempre um fascínio sobre a autora, tornou-se um desafio. A complexidade das relações familiares é reveladora das mais amplas e significativas características da personalidade humana e, portanto tema para muitas observações e trabalhos de pesquisa.

         A literatura confirma tal interesse nos trabalhos de Konstantareas & Homatidis (1991), os quais pesquisam diferentes formas de reações familiares e as estratégias de enfrentamento ativadas por uma doença orgânica infantil ou por condição limitante dela decorrente.

         Os estudos de Powell et al. (1992) enfatizam a importância de variáveis como estresse, aspectos financeiros, relação conjugal, alterações emocionais e quadros depressivos que disfuncionam as famílias, dificultando inclusive o encaminhamento de questões relativas à adaptação e ao tratamento.

         Teorias mais recentes valorizam dimensões biológicas e físicas do organismo e do ambiente, além de características psicossociais do sistema familiar, vistas e valorizadas por vários grupos profissionais, como o de Bell (1979), cujo ponto de vista deve ser considerado quando se trabalha e se pesquisa essas famílias.

         Há evidências suficientes comprovando que o sistema familiar deve ser considerado como unidade de cuidados profissionais em seu sentido mais amplo, segundo afirmam Assumpção & Sprovieri (1991). Outros autores, como Donnellan & Mirenda (1984), sugerem que os profissionais devem incluir as famílias de seus pacientes no processo de diagnóstico e tratamento.

         As reações inicias dos pais passa a ser vista em sua forma ampliada por estudiosos que exploram a existência do sistema familiar disfuncional e buscam tratamento clínico visando a restabelecer o estado de equilíbrio e saúde, como relatam Konstantareas & Homatidis (1991).

         Teóricos em sistemas familiares, dentre eles Bateson (1986), Minuchin (1982); Packman (1988) e Sluzky (1991), têm enfatizado as influências cruzadas do sistema familiar como exercendo poderosa ação em seus elementos. Mudanças, por menores que sejam, em qualquer parte do sistema familiar, afetam sua totalidade e demanda manobras de adaptação para viver um novo estado de equilíbrio dinâmico, conforme Beckman (1983). Mais recentemente, ecologistas sociais, especificamente Bronfenbrenner (1979), têm voltado sua atenção para o meio familiar com relação à estrutura externa dentro da qual as famílias existem e atuam.

         A família representa, independentemente da visão filosófica com que será abordada, o sistema nucleador de experiências do ser humano, além de ser considerada o fator de crescimento responsável por níveis de desempenho ou de falha. Constitui, assim, a unidade básica de doença ou de saúde, segundo Ackerman (1986).

         A dinâmica familiar do portador de síndrome autista tem sido objeto de numerosos estudos, entre eles os de Parkes (1975), Cohen & Warren (1985), Trute (1988), cujo objetivo se prende à melhor forma de compreender o sistema relacional para ajudá-lo a superar os problemas de inter-relacionamento ou, ainda, para facilitar a convivência e suas conseqüências.

         Nas últimas décadas estudiosos do assunto, entre os quais Beckman (1983) e Cohen (1989), focalizam em suas pesquisas famílias cujas crianças são portadoras de algum tipo de deficiência e, por essa condição, experimentam alguma limitação em sua capacidade adaptativa. Como outros pesquisadores, Fisman & Wolf (1991) acompanham as mudanças no sistema familiar quanto à estruturação da unidade familiar, principalmente no que se refere ao desempenho de papéis e efeitos psicológicos sobre os pais de crianças com problema de distúrbios de desenvolvimento, revisando e discutindo novas descobertas em seu trabalho com famílias de autistas, à luz da nova visão dos profissionais que trabalham em psiquiatria. Após a década de 60, com os primeiros trabalhos de terapia de família de Bateson (1971), é explicitada a teoria da comunicação com ênfase na importância das relações complementares em famílias de pacientes psiquiátricos. Na mesma época, Anthony & Koupernick (1970) organizam a obra A criança e sua família, na qual se redefinem a natureza da desordem patológica e o alcance da mudança terapêutica ao se enfocar a criança doente não mais de forma individual, mas no contexto familiar. Na mesma linha de pesquisa, Minuchin (1975) desenvolve um modelo de funcionamento familiar, usado para identificar os efeitos da doença de um de seus membros na família como um todo. O estudo refere-se às crianças asmáticas e anoréticas.

         Um dos primeiros trabalhos estudando o efeito do convívio com crianças excepcionais sobre seus pais é realizado por Farber (1959). Pesquisa o efeito de crianças retardadas sobre seus familiares examinando 187 famílias em Chicago. Os seus resultados levantam questões importantes como desorganização familiar, institucionalização, religião influindo na aceitação familiar e relacionamentos positivos com amigos e vizinhos, favorecendo menor estresse familiar, e que colocam posições de controvérsia.

         Outro estudo importante é o de Holroyd (1974), que examina o impacto de crianças retardadas sobre o emocional dos pais. Posteriormente Holroyd & McArthur (1976) tentam medir o negativismo e, mesmo, o possível positivo impacto de crianças com síndrome de Down e autistas em suas famílias. Mães de crianças com autismo relatam maior estresse do que as de crianças com síndrome de Down, embora em ambos os grupos as mães demonstrem saúde precária, humor depressivo, exigência não-positiva com relação a si e aos outros. Mães de crianças autistas relatam maior dependência da criança e maiores limites de oportunidades para a família, dados considerados como fatores que contribuiriam para o estresse e a depressão nessas mães. Estudando apenas pais de crianças autistas e usando grupo de controle assintomático, De Meyer (1979) também refere-se extensivamente à condição de mães da amostra pesquisada. Elas eram as únicas em quatro grupos de pais a terem elevados escores de depressão na escala MMPI. Seu estudo inferiu que a idade das crianças afetava o grau de estresse, e as mais velhas foram observadas como mais estressantes. Outros trabalhos, entre eles o de Marcus (1987), parecem pontuar que pais de crianças autistas apresentam maior estresse que os de outras crianças com problemas de desenvolvimento, e são mais sujeitos a quadros depressivos. Os pais são atentos e influenciados por características inerentes ao problema de seus filhos (aspecto físico, agitação, balanceio de corpo) apontadas por eles, como fatores estressantes. Portanto, é evidente que as características de uma criança-problema causam impacto negativo do que positivo em seus pais e familiares.

         Paralelamente ao exposto, os padrões de relacionamento interpessoal e social dessas famílias é disfuncional e freqüentemente contribuem para a redução na competência para cuidar da criança, conforme afirmam Cummings et al (1966).

         O ciclo vital dos pais enquanto tal é profundamente afetado pelos atributos de seus filhos. A condição de pais propicia aos adultos oportunidades de enriquecimento de suas próprias identidades, ensejando a afirmação concreta de sua capacidade de gerar, por crescente nível de autoconhecimento propiciado pela vivência dos papéis parentais, aproximação de seus ideais e possibilidade de acompanhar o desenvolvimento de sua prole, o que proporciona gratificações afetivas imediatas, ao lado de ampla gama de dificuldades e dilemas observados quando ocorre um fato inesperado como a doença infantil limitante.