CONCLUSÕES
Do ponto de vista do estudo da dinâmica familiar, a
utilização da entrevista E.F.E. possibilitou uma postura, por parte da
pesquisadora, que repercutiu favoravelmente no sistema familiar. Propiciou uma
abordagem espontânea, que serviu para trazer à luz muito da riqueza da dinâmica
familiar, levando todos a um momento de reflexão.
Embora
não tenha sido o propósito da pesquisa proceder a qualquer tipo de intervenção
terapêutica, considerou-se que a abertura do sistema propiciada pelo convite à
reflexão implícito no método de trabalho utilizado possibilitou às famílias
alguns resultados positivos. Um deles foi a mudança de opinião a respeito das
relações entre a criança autista e os outros filhos. A oportunidade de falar
sobre assuntos que parecem tabu, a condição de serem ouvidos sobre seus medos
com relação ao futuro foi outro dos resultados positivos.
A partir
da experiência da autora deste texto como profissional da área, e do
levantamento bibliográfico feito para seu estudo, a dinâmica familiar do
autista foi percebida como vivências de perda significativas a partir do
diagnóstico da criança, que trazem conseqüências para a sua família por se
tratar de quadro de doença crônica que exige muito de seus familiares
Tanto
por essa experiência quanto pela realização do levantamento da bibliografia
especializada emergiu o interesse em realizar um estudo que investigasse essa
dinâmica num estudo comparativo com portadores de síndrome de Down e
assintomáticos. A pesquisa sobre estresse e alexitimia nos pais dessa população
poderia esclarecer se esses fatores estariam relacionados com o quadro de
doença crônica e se influenciariam para o estabelecimento dessa problemática.
Delineada
a idéia, estabelecido o caminho a percorrer e escolhidos os instrumentos de avaliação
para que, após a realização do estudo seus resultados fossem apresentados, a
pesquisa se concretizou.
A partir
da análise e discussão dos dados obtidos, a autora acredita terem sido
abordados pontos importantes sobre o assunto, levantando algumas
características relevantes para a melhor compreensão da dinâmica dessas
famílias, assim como do estresse e da alexitimia. Para os fins propostos
considera-se que o estudo alcançou os objetivos inicialmente estabelecidos.
Dos
dados obtidos verificou-se a não-observação de diferenças significativas nos
níveis de estresse, consideradas as três fases, nas mães de famílias com
crianças assintomáticas, autistas e portadoras da síndrome de Down; nem mesmo
quando comparados entre si, o que demonstra que, independentemente da presença
de uma criança-problema, as mulheres mostram-se igualmente estressadas.
Constatou-se
também a inobservância de diferenças significativas nos níveis de estresse em
pais de famílias com crianças assintomáticas, autistas e portadores da síndrome
de Down quando comparados entre si. Exceção feita aos pais de portadores da
síndrome de Down, quando avaliado o estresse em fase de resistência, que
mostrou diferença estatisticamente significativa ao ser comparado com o de
famílias assintomáticas , confirmando que o estresse apresentado não está
relacionado à doença crônica mas a como as pessoas lidam com suas dificuldades.
Verificou-se
que o estresse observado nos três grupos familiares foi semelhante, encontrando
se em fase de resistência (o que era esperado, pois são quadros crônicos e,
portanto, o impacto da notícia já foi absorvido, não existindo sintomatologia
decorrente do estresse). A família encontra um novo equilíbrio, mantém certa
homeostase frente ao problema que no momento está sobre controle
Frente
aos resultados deste estudo pode - se afirmar que nos três grupos familiares, a
principal carga de estresse centra-se na figura materna, podendo-se
relacioná-lo ao papel da mulher no mundo em que se vive, por suas solicitações
em níveis interno e externo, a mulher é levada a se estressar com maior
facilidade. No entanto, por todas as afirmações já feitas, têm-se também de
pensar que a estrutura familiar, com seus papéis e funções pouco definidos,
favorecem o estresse da mulher, a qual por se responsabilizar pela prole, tem
atribuições mais exigentes. A presença de cônjuges iguais ainda não está
presente em nossas famílias (Lewis,1991).
Dos
dados obtidos quanto a alexitimia, encontrou-se que, nas famílias
assintomáticas, os pais têm maiores dificuldades de verbalizar afeto do que as
mães, confirmando característica da cultura brasileira, na qual os pais têm
maior resistência em participar de forma efetiva e afetiva. O papel do pai
ainda é distante. A sua liderança está voltada à responsabilidade de provedor.
Segundo Skinner (1979), o homem, para manter seu papel de líder, é rígido e
autocrático não expressando a sua afetividade e, em conseqüência, colaborando
para dificuldades relacionais.
Nos
autistas, ambos os genitores têm dificuldades na verbalização do afeto. Esse
dado, encontrado nas famílias de autistas, confirma os primeiros trabalhos de
Kanner (1943) quando relata pais frios e intelectualizados. Tal procedimento,
porém, leva a supor que a falta de responsividade do autista faz com que seus
pais tenham dificuldade de verbalizar afetos.
Relacionando
esses dados com os obtidos dos pais de portadores da síndrome de Down, com
ambos os pais verbalizando melhor o afeto, verificou-se que a resposta afetiva
por eles dada a seus pais poderia contribuir para que fossem afetivos.
Confirmou-se assim o processo de interdependência entre crianças e pais. Bowlby
(1969) define essa relação como comportamento de cuidados.
O
autista tem, como característica de sua própria problemática, dificuldade na
interação social visualizada pela inabilidade em relacionar-se com o outro,
característica que traz também problemas de conduta.
Esse
fator reflete-se no ambiente familiar, desorganizando-o e impedindo-o de
ultrapassar de modo satisfatório suas fases evolutivas. Assim, a família passa
a viver em função do doente e de suas exigências, por sua dificuldade em
adquirir autonomia e pela dependência permanente. Não se pode deixar de avaliar
como tal situação é estressante e dificultadora de verbalização afetiva, ainda
que não tenha sido possível mensurá-la.
O
autista e o deficiente mental, como o doente mental, participam de um processo
de exclusão social. Conforme sinalizado por Goffman (1978), a família sofre uma
pressão social quando tem um elemento que não corresponde às expectativas da
sociedade.
Dessa
forma, apresentam maiores dificuldades relacionais, pois todos os problemas
mapeados nesta pesquisa, confirmam as dificuldades vividas nesse contexto. No
mundo moderno, com as informações se processando rapidamente e as pessoas sendo
avaliadas por sua competência, na óptica da sociedade, uma família com um
elemento que não cumpre com seu papel, não atende às exigências sociais e tem
dificuldades de se organizar.
A
presença de patologias mentais crônicas (autismo e síndrome de Down) faz com
que, como visto pelos resultados da avaliação procedida, as famílias sejam
dificultadoras da saúde emocional dos elementos do grupo.
Algumas
categorias avaliadas parecem mais comprometidas frente ao problema, no que se
refere:
Ä
à auto-estima (um filho com doença crônica desvaloriza a
família). A família não conta com a compreensão da sociedade por esta
geralmente depreciar as crianças deficientes (Weight, 1985);
Ä
à integração (um deficiente sempre atrapalha a inserção
social da família). Goffman (1982) observou que a posição ocupada na sociedade
pelas pessoas com algum tipo de limitação é semelhante a dos grupos étnicos
menos privilegiados e a dos grupos religiosos minoritários;
Ä
à individualização (um deficiente impede que os pais
cresçam). Pais de deficientes sofrem restrições em todos os setores da vida
(Ricci, 1989);
Ä
à interação conjugal pode ser comprometida (um deficiente
dificulta o sistema relacional), pois o deficiente impede que os pais vivam a
criatividade e o crescimento, assim como dificultam o respeito a
individualidade dos elementos do grupo (Carter & Mcgoldrick,1995).
Deve-se
considerar também as sérias e profundas mudanças pelas quais a família passa
(Szymanski, 1992), que exigem uma estrutura familiar cada vez mais flexível para
fazer frente as exigências sociais, com papéis claros e definidos de todos os
elementos do grupo. A mulher, muitas vezes, desempenha uma atividade
profissional (para criar estrutura para cuidados com as crianças). Assim, a
família do deficiente já entra no contexto em desvantagem.
A
pesquisa ora realizada não abrangeu de forma total, nem esgotou o tema sobre a
dinâmica familiar do autista ao avaliar o nível de estresse e de alexitimia.
Apesar de a autora ter procurado selecionar uma amostra significativa,
comparando-a com outros dois grupos familiares, é preciso lembrar que, mesmo
assim foi reduzida, o que não permite grandes generalizações.
Entretanto,
neste estudo reuniu-se importantes aspectos da dinâmica familiar dos autistas e
portadores da síndrome de Down, tentando confirmar a hipótese formulada.
Finalmente,
inferiu-se que a família do autista é dificultadora da saúde emocional dos
elementos do grupo, os pais apresentam estresse sem diferenças estatisticamente
significativas e tanto pais quanto mães apresentam alexitimia.
Apoiada
na literatura, a pesquisadora acredita que falar dessas famílias é como falar
de todas aquelas que se superorganizam em torno de algum padrão de cronicidade.
O funcionamento dessas famílias, associado aos conteúdos específicos que as
diferenciam, apresentam a mesma configuração no que se refere à doença como
elemento organizador dos padrões relacionais. A dificuldade de favorecer a
saúde emocional se apresenta na medida que estes sistemas não disponham de
recursos internos e/ou externos para fazer face á tensão por tempo prolongado
ou por toda a vida.
O
autismo é uma doença crônica, sem perspectivas de cura, e apresenta um quadro
que mantém o paciente quase que inalterado ao longo da vida, com comportamentos
ritualistas, dificuldades para mudanças ,exigindo cuidados permanentes de seus
familiares. A dor da família se faz presente sempre e cumpre aos profissionais
da área, ajudá-los a minorá-la. Todos os estudos que possam contribuir para o
melhor conhecimento desse contexto fazem sentido, pois mais um passo está sendo
dado no conhecimento dessa realidade.
A N E X
O S
1 Inventário de
sintomas de stress (ISS)
2 Escala de
Toronto (TAS)
3 Avaliação da
entrevista com família
4 Entrevista familiar estruturada E.F.E. (1983)
5 Tipologia as
doenças crônicas
6 Classificação
sócio econômica: figura 1
7 Classificação
sócio econômica: figura 2
8 Classificação
sócio econômica: figura 3
Anexo 1:
Inventário
de Sintomas de Stress (ISS)
|
PARTE 1 |
PARTE 2 |
|
Marque
com F1 os sintomas que tem experimentado nas últimas 24 horas |
Marque
com F2 os sintomas que tem experimentado na última semana |
|
( ) 1. mãos ou pés frios |
( ) 1. problemas com a memória |
|
( ) 2. boca seca |
( ) 2. mal-estar generalizado, sem causa
específica |
|
( ) 3. nó no estômago |
( ) 3. formigamento das extremidades |
|
( ) 4. aumento da sudorese (1) |
( ) 4. sensação de desgaste físico constante |
|
( ) 5. tensão muscular |
( ) 5. mudança de apetite |
|
( ) 6. aperto da mandíbula/ranger de dentes |
( ) 6. aparecimento de problemas
dermatológicos |
|
( ) 7. diarréia passageira |
( ) 7. hipertensão arterial (4) |
|
( ) 8. insônia |
( ) 8. cansaço constante |
|
( ) 9. taquicardia (2) |
( ) 9. gastrite,
úlcera ou indisposição estomacal prolongada |
|
( ) 10. hiperventilação
(3) |
( ) 10. Tontura
ou sensação de estar flutuando |
|
( ) 11.
hipertensão arterial súbita e passageira (4) |
|
|
( ) 12. Mudança
de apetite |
|
|
Some 1
ponto para F1 que assinalou: F1 = ___ |
Some 1
ponto para F2 que assinalou: F2 = ___ |
|
|
|
|
Marque
com P1 os sintomas que tem experimentado nas últimas 24 horas |
|
|
( ) 13. aumento
súbito de motivação |
|
|
( ) 14.
entusiasmo súbito |
|
|
( ) 15. vontade
súbita de iniciar novos projetos |
|
|
Some 1
ponto para P1 que assinalou: P1 = ___ |
|
|
|
|
|
Marque
com P2 os sintomas que tem experimentado na última semana |
|
|
( ) 11.
sensibilidade emotiva excessiva |
( ) 1. aumento de transpiração |
|
( ) 12. dúvida
quanto a si próprio |
( ) 2. batedeira cardíaca |
|
( ) 13. pensar
constantemente em um só assunto |
( ) 3. aumento da freqüência respiratória |
|
( ) 14.
irritabilidade excessiva |
( ) 4. aumento da pressão |
|
( ) 15.
diminuição da libido |
|
|
Some 1
ponto para P2 que assinalou: P2 = ___ |
|
|
PARTE 3 |
|
|
Marque
com F3 os sintomas que tem experimentado no último mês |
|
|
( ) 1. diarréia freqüente |
|
|
( ) 2. dificuldades sexuais |
|
|
( ) 3. insônia |
|
|
( ) 4. náusea |
|
|
( ) 5. tiques |
|
|
( ) 6. hipertensão arterial continuada (4) |
|
|
( ) 7. problemas dermatológicos prolongados |
|
|
( ) 8.mudança extrema de apetite |
|
|
( ) 9. excesso de gases |
|
|
( ) 10. tontura
freqüente |
|
|
( ) 11. ulcera,
colite ou outro problema digestivo sério |
|
|
( ) 12. Enfarte |
|
|
Some 1
ponto para F3 que assinalou: F3 = ___ |
|
|
|
|
|
Marque
com P3 os sintomas que tem experimentado no último mês |
|
|
impossibilidade de trabalhar |
|
|
pesadelos freqüentes |
|
|
sensação de incompetência em todas as áreas |
|
|
vontade de fugir de tudo |
|
|
apatia, depressão ou raiva prolonga |
|
|
cansaço constante e excessivo |
|
|
pensar e falar constantemente em um só assunto |
|
|
irritabilidade freqüente sem causa aparente |
|
|
angústia, ansiedade, medo diariamente |
|
|
hipersensibilidade emotiva |
|
|
perda de senso de humor |
|
|
Some 1
ponto para P3 que assinalou: P3= ___ |
|
ANEXO 2: Escala de Toronto
(TAS)
Fator 1: Integrado por itens que avaliam o poder de
diferenciar os sentimentos das sensações corporais e, a capacidade de
identificar e descrever os sentimentos
1.
Quando choro, sempre sei por que o faço.
4.
Muitas vezes me confundo e não sei bem o que estou sentindo.
8. É
difícil encontrar palavras para expressar o eu sinto.
10. Tenho sensações em meu corpo que nem os
médicos entendem.
12. Posso contar o que sinto sem problemas.
14. Quando me sinto mal não sei se estou triste,
assustado ou enjoado.
17. Muitas vezes me surpreendo por certas
sensações que tenho em meu corpo.
20. Tenho sensações que não posso explicar com
palavras.
22. Parece-me difícil dizer o que sinto a
respeito das pessoas.
25. Não sei o que está dentro de mim.
26. Geralmente não sei por que estou enjoado.
Fator 2: Os itens referem-se à capacidade de comunicar
às outras pessoas os próprios sentimentos
3.
Queria ser menos tímido.
6.
Parece-me fácil, como as demais pessoas, ter amigos.
8. É
difícil, para mim, encontrar palavras para expressar o que sinto.
9.
Gosto que os demais se dêem conta de que estou preocupado com algo.
12. Posso contar o que sinto sem problemas.
22. Parece-me difícil dizer o que sinto a
respeito das pessoas.
23. As pessoas me pedem que conte melhor os meus
sentimentos.
Fator 3: Referem-se
à capacidade para imaginar e fantasiar
2.
Fantasiar é perder tempo.
5.
Muitas vezes fantasio sobre o futuro.
15. Uso muito minha imaginação.
16. Quando não tenho nada para fazer coloco-me a
sonhar acordado.
18. Coloco-me a fantasiar.
Fator 4: Os itens referem-se à tendência a preocupar-se
mais por problemas externos do que na análise de experiências pessoais
7.
Saber resolver um problema é mais importante do que saber por que se
resolveu desse modo.
11. Não me basta saber que uma tarefa está
feita, necessito saber como e por que se fez.
13. Prefiro mais analisar meus problemas do que
simplesmente contá-los.
19. Prefiro aceitar as coisas tal como se passam
do que tratar de entender por que se passam dessa
forma.
21. É importante ter emoções, poder sentir
coisas.
24. Poderia buscar explicações mais profundas.
ANEXO 3: Avaliação da
entrevista com família
Comunicação:
( ) 1. Congruente ( )
Incongruente
( ) 2. Confusa ( )
Clara
( ) 3. Sem direcionalidade adequada (
) Com direcionalidade adequada
( ) 4. Com carga emocional adequada (
) Sem carga emocional adequada
Papéis:
( ) 5. Indefinidos ( )
Definidos
( ) 6. Adequados ( )
Inadequados
( ) 7. Ausentes ( )
Presentes
Liderança:
( ) 8. Ausente ( )
Presente
( ) 9. Fixa ( )
Diferenciada
( ) 10. Democrática ( )
Autocrática
Manifestação de agressividade:
( ) 11. Presente ( )
Ausente
( ) 12. Destrutiva ( )
Construtiva
( ) 13. Com direcionalidade
adequada ( )
Sem direcionalidade adequada
Afeição física:
( ) 14. Ausente ( )
Presente
( ) 15. Recusada ( )
Aceita
( ) 16. Com carga emocional
adequada ( )
Sem carga emocional adequada
( ) 17. Com expressão
física adequada ( )
Sem expressão física adequada
Interação conjugal:
( ) 18. Indiferenciada ( )
Diferenciada
( ) 19. Gratificante ( )
Não-gratificante
Individualização:
( ) 20. Ausente ( )
Presente
Integração:
( ) 21. Presente ( )
Ausente
Auto-estima:
( ) 22. Alta Baixa
Promoção de saúde emocional:
( ) 23. Dificultada ( )
Facilitada