Dessa
maneira, vicissitudes da paternidade e maternidade são reconhecidas por Kazak
(1987) como um conjunto de influências muito poderoso sobre a sua personalidade
durante o seu ciclo vital. Tais mudanças influenciam a inter-relação dos pais
com seus filhos, definindo os padrões interacionais. Foi encontrada ao longo do
ciclo vital da família uma autoculpa materna não-comprovada pela limitação e a
definição, por parte da mãe, sobre o fato, de uma catástrofe familiar. Tal fato
é confirmado por nossa própria experiência profissional no trabalho clínico com
essas famílias.
Autores
como Mash (1984) e Parke (1981) elaboraram trabalhos nos quais comentam
excessivamente a depressão reativa de muitos pais de crianças incapazes. Entre
as principais características da depressão descrita por comportamentalistas
cognitivos encontram-se a, auto-avaliação negativa e a tendência a ver o
problema e suas experiências como negativas e catastróficas. De fato, baixo
autoconceito tem sido relatado para caracterizar a auto-apreciação de muitos
pais de crianças excepcionais, independentemente da relação com uma prévia
psicopatologia. Evidentemente nem todos os estudos relatam menor autoconceito
dos pais das crianças com problemas do que os normais.
O
nascimento de uma criança diferente é o ponto significativo do estudo de
Rutter, citado por Konstantareas (1991), o qual refere o grau de
responsabilidade que os pais se atribuem ou os eventos externos a eles que não
podem controlar. Aplicando questionários, encontrou que um fator externo foi
associado ao maior estresse nas mães de crianças incapazes de aprender, mas
somente quando provinham de alto nível sócio econômico, resultado não-óbvio. As
influências atribuídas ao estresse parecem complexas e permanecem inexploradas
em diferentes populações de crianças e pais. A atribuição de eventos externos
ultrapassa o controle pessoal dos pais e implica a tendência geral de sentirem
impotência com relação aos fatos da vida.
Além
de melhorar a compreensão conceitual de como as famílias podem melhor lutar com
suas crianças atípicas, pesquisas devem dar suporte para que se adotem melhores
estratégias de intervenção. Portanto, pelo já colocado, inúmeras razões, tanto
de ordem prática quanto teórica, levam estudiosos do assunto, a pesquisar padrões
de comportamento relacional e emocional da família da criança com autismo. A
busca de modelos de enfrentamento, explorando aspectos ainda não-pesquisados,
levam a identificar como as famílias lidam com situações de crise frente à
criança atípica e como seus pais desempenham esse papel.
Tal
é a indagação, que se faz a pesquisadora neste momento de sua vida
profissional, em função do trabalho clínico que realiza com tais famílias, e
das questões que lhe são colocadas por essa população, que a procura para aliviar
a sua dor.
Autismo
Segundo
Gilberg (1990), o autismo é considerado atualmente como uma síndrome
comportamental com etiologias múltiplas em conseqüência de um distúrbio de
desenvolvimento. Caracterizado por um déficit na interação social visualizado
pela inabilidade em relacionar-se com o outro, usualmente é combinado com
déficits de linguagem e alterações de comportamento.
Ao
DSM-IV (1996) é relatado como um quadro iniciado antes dos três anos de idade,
com prevalência de quatro a cinco crianças em cada 10.000, com predomínio maior
em indivíduos do sexo masculino (3:1 ou 4:1) e decorrente de vasta gama de
condições pré, peri e pós-natais.
Para
o diagnóstico, de autismo, segundo o DSM - IV (1996), são necessários:
Ä
Seis (ou mais) itens de 1, 2 e 3, com pelo menos dois de
1, um de 2, e um de 3:
1. prejuízo
qualitativo na interação social, manifestando por pelo menos dois dos seguintes
aspectos:
ü
prejuízo acentuado da criança no uso de múltiplos
comportamentos não-verbais, como contato visual direto, expressão facial,
postura corporal e gestos para regular a interação social;
ü
fracasso em desenvolver relacionamentos com seus pares
apropriados em nível de desenvolvimento;
ü
falta de tentativa espontânea de compartilhar prazer,
interesses ou realizações com outras pessoas ( por exemplo, não mostrar, trazer
ou apontar objetos de interesse);
ü
falta de reciprocidade social ou emocional.
2. prejuízos
qualitativos na comunicação, manifestados por pelo um dos seguintes aspectos:
ü
atraso ou ausência total de desenvolvimento da linguagem
falada (não-acompanhado por tentativa de compensar mediante modos alternativos
de comunicação, como gestos ou mímica);
ü
em indivíduos com fala adequada, acentuado prejuízo na
capacidade de iniciar ou manter conversação;
ü
uso estereotipado e repetitivo da linguagem ou linguagem
idiossincrática;
ü
falta de jogos ou brincadeiras de imitação social variados
e espontâneos, apropriados em nível de desenvolvimento.
3. padrões
restritos e repetitivos de comportamento, interesses e atividades, manifestados
por pelo menos um dos seguintes aspectos:
ü
preocupação insistente com um ou mais padrões
estereotipados e restritos de interesse, anormais em intensidade ou foco;
ü
adesão aparentemente inflexível a rotinas ou rituais
específicos e não-funcionais;
ü
maneirismos motores estereotipados e repetitivos (por
exemplo: agitar ou torcer mãos ou dedos, ou movimentos complexos de todo o
corpo);
ü
preocupação persistente com partes de objetos.
Ä
Atrasos ou funcionamento anormal em pelo menos uma das
seguintes áreas, com início antes dos três anos de idade:
ü
interação social;
ü
linguagem para fins de comunicação social;
ü
jogos imaginativos ou simbólicos.
Ä
A perturbação não é melhor explicada por transtorno de
Rett ou transtorno desintegrativo da infância.
No
CID-1O (1993) encontra-se o conceito de transtornos globais do desenvolvimento
definido como grupo de transtornos caracterizado por alterações qualitativas
das interações qualitativas das interações sociais recíprocas e modalidades de
comunicação, e por um repertório de interesses e atividades restrito,
estereotipado e repetitivo. Tais anomalias qualitativas constituem uma
característica global do funcionamento do sujeito, em todas as ocasiões.
O
autismo infantil-transtorno global do desenvolvimento é caracterizado por
desenvolvimento anormal ou alterado, manifestado antes da idade de três anos;
apresenta perturbação característica do funcionamento em cada um dos três
seguintes domínios: interações sociais, comunicação, comportamento focalizado e
repetitivo, além de o transtorno ser acompanhado comumente de numerosas outras
manifestações inespecíficas, como fobias, perturbações do sono ou da
alimentação, crises de birra ou agressividade (auto-agressividade). "
Anteriormente,
pelo DSM-IIIR (1989), diagnosticava-se autismo por ao menos oito dos 16 itens
seguintes, incluindo-se pelo menos dois itens do primeiro grupo, um do segundo,
e um do terceiro.
1 Incapacidade qualitativa na integração social
recíproca manifestada por:
ü
acentuada falta de alerta da existência ou sentimentos dos
outros;
ü
ausência ou busca de conforto anormal por ocasião de
sofrimento;
ü
irritação ausente ou comprometida;
ü
jogo social anormal ou ausente;
ü
nítida incapacidade para fazer amizade com seus pares.
2 Incapacidade qualitativa na comunicação verbal
e não-verbal e na atividade imaginativa, manifestada por:
ü
ausência de modo de comunicação, como balbucio
comunicativo, expressão facial, gestos, mímica ou linguagem falada;
ü
comunicação não-verbal acentuadamente anormal, como olhar
fixo olho-no-olho, expressão facial, postura corporal ou gestos para iniciar ou
modular a interação social;
ü
ausência de atividade imaginativa, como representação de
papéis de adultos, personagens de fantasia ou animais, falta de interesse em
histórias sobre acontecimentos imaginários;
ü
anormalidades marcantes na produção do discurso, incluindo
volume, entonação, estresse, ritmo, velocidade e modulação;
ü
anormalidades marcantes na forma ou conteúdo do discurso,
abrangendo o uso estereotipado e repetitivo da fala, uso de você quando eu é pretendido, freqüentes apartes irrelevantes;
ü
incapacidade marcante na habilidade para iniciar ou
sustentar uma conversação com os outros, apesar da fala adequada.
3 Repertório de atividades e interesses
acentuadamente restritos, manifestado por:
ü
movimentos corporais estereotipados, como pancadinhas com
as mãos, rotação, movimentos de torção, batimentos da cabeça, movimentos
complexos de todo o corpo;
ü
insistente preocupação com parte de objetos ou vinculação
com objetos inusitados;
ü
sofrimento acentuado com mudanças triviais no aspecto do
ambiente, por exemplo, quando um vaso é retirado de sua posição usual;
ü
insistência sem motivo em seguir rotinas com detalhes
precisos, por exemplo, a obstinação em seguir sempre exatamente o mesmo caminho
para as compras;
ü
âmbito de interesses marcadamente restritos e preocupação
com interesse limitado, por exemplo, em enfileirar objetos, em acumular fatos
sobre meteorologia ou em fingir ser um personagem de fantasia.
4 Início na primeira infância ou infância.
ü
Especificar se o início do problema se deu na primeira
infância (após os 36 meses de vida).
Diversos
autores, entre os quais Wing (1988), apresentam a noção de autismo como aspecto
sintomatológico, dependente do comprometimento cognitivo. Essa abordagem
reforça a tendência de se tratar o autismo não mais como uma única doença, mas
como um grupo delas, embora traga implícita também a noção de autismo
relacionada primariamente a déficits cognitivos.
Esse
continuum pode ser visualizado no
quadro a seguir:
Quadro 1
O
continuum autístico de Wing
Item
|
Visto mais freqüentemente em DMs mais
comprometidos. |
|
|
Visto mais freqüentemente em DMs menos
comprometidos. |
Interação social
|
1. Indiferente. |
2.
Aproximação somente para necessidades físicas. |
3.
Aceita passiva- passivamente a aproximação. |
4. Aproximação de modo bizarro. |
|
Comunicação
social (verbal e não verbal) |
1. Ausente. |
2.Somente necessidades. |
3.
Responde à aproximação. |
4.
Comunicação espontânea, repetitiva. |
|
Imaginação
social |
1. Sem imaginação. |
2. Copia mecani-camente o outro. |
3. Usa bonecos e brinquedos corretamente, mas
repetitivo, limitado, não criativo. |
4. Atos fora da situação, mais repetitivos, usando o
outro mecanicamente. |
|
Padrões
repetitivos |
1. Simples (auto-agressão) ao corpo. |
2. Simples (dirigido ao objeto) girar do objeto. |
3. Rotinas comple-xas, manipulação de objetos,
movimentos (rituais e ligações com objetos). |
4. Verbal abstrato (questões repetitivas). |
Linguagem
|
1. Ausente. |
2. Limitada (ecolalia). |
3. Uso incorreto de pronomes, preposições, uso
indiossincrático de frases. |
4. Interpretações literais, frase gramaticais repe-
titivas. |
|
Respostas
a estímulos sensoriais (sensibilidade a sons, cheiro, gosto, indiferença a
dor) |
1.
Muito marcada. |
2. Marcada. |
3.Ocasional. |
4. Mínima ou ausente. |
|
Movimentos
(balanceios e estereotipias) |
1.
Muito marcados. |
2. Presente. |
3. Ocasionais. |
4. Mínimos ou ausentes. |
|
Condutas
especiais |
1. Ausentes. |
2. Um padrão melhor que os outros, mas abaixo da IC. |
3. Um padrão na sua idade cronológica, outros abaixo. |
4. Um padrão de habilidade acima da IC. Diferente das
outras habilidades. |
Fonte: Wing, 1988.
Dessa maneira, é extremamente
difícil a construção do fenômeno autismo, uma vez que, conforme já exposto, o
fenômeno engloba grande número de diferentes patologias, bem como uma concepção
teórica de grande influência neste pensar.
Déficits no autismo: cognitivos ou afetivos?
Os
déficits autísticos, conforme já relatado, são relacionados a um déficit
crônico nas relações sociais, descritos em todos os trabalhos de Kanner (1943,
1949,1954,1955,1956,1968 e 1973) bem como no de Ritvo (1976) e mesmo nas atuais
classificações de DSM-III-R (APA, 1989), DSM IV (APA, 1992), francesas de
distúrbios mentais de Misés (1990), ou na CID-10 (WHO, 1993).
Alguns
autores citados por Baron-Cohen (1988) relacionam o falar autístico a déficits
pragmáticos na linguagem. Esse dado, embora não mencionado nos sistemas
classificatórios, é importante na compreensão do quadro em si.
Duas
teorias tentam esclarecer o fenômeno, as quais serão abordadas na seqüência.
Teoria afetiva
Uma
das propostas para explicação do déficit social do autismo reporta-se à teoria
afetiva originalmente apresentada por Kanner (1943), inclusive a partir do
título de seu trabalho Distúrbios
autísticos do contato afetivo. Várias versões foram elaboradas no decorrer
do tempo, entre elas a de Hobson (apud
Baron-Cohen, 1988), com quatro grandes axiomas:
Ä
crianças autistas têm falhas constitucionais de componente
de ação e reação necessários para o desenvolvimento das relações pessoais com
outras pessoas, as quais envolvem afeto;
Ä
as relações pessoais são necessárias para a continuação do
mundo próprio e com os outros;
Ä
os déficits das crianças autistas na experiência social
intersubjetiva têm dois resultados especialmente importantes:
ü
déficit relativo no reconhecimento de outras pessoas como
portadoras de sentimentos próprios, pensamentos, desejos, intenções;
ü
déficit severo na capacidade para abstrair, sentir e
pensar simbolicamente;
Ä grande parte das inabilidades de
cognição e linguagem das crianças autistas podem refletir déficit que tem
íntima relação com o desenvolvimento afetivo e social, e ou déficits sociais
dependentes da possibilidade de simbolização.
Essa posição pode ser
esclarecida no diagrama apresentado a seguir:
FALHA INATA NA HABILIDADE DE INTERAGIR COM OS OUTROS
![]()
![]()
FALHA NO RECONHECIMENTO DOS FALHA NO RECONHECIMENTO DOS
ESTADOS MENTAIS DE OUTRAS PESSOAS
![]()
ESTADOS MENTAIS DE OUTRAS PESSOAS
![]()
![]()
![]()
Déficits
no Déficits Déficits nos padrões de jogo social
Reconhecimento de emoções
pragmáticos
Figura 1: A teoria
afetiva
Fonte: Baron-Cohen (1988)
Teoria cognitiva
Contrapondo-se
à teoria afetiva, Baron-Cohen (1988,1990,1991) e Frith (1988) propõem uma
teoria cognitiva para o autismo.
Como
ponto central de sua teoria consideram que a dificuldade principal da criança
autista é a impossibilidade que possui para compreender estados mentais de
outras pessoas. Essa inabilidade tem sido chamada por esses autores de teoria da mente porque envolve o
conceito da existência de estados mentais que são utilizados para explicar ou
prever o comportamento de outras pessoas.
A
base dessa visão poderia ser assim resumida:
ü
as nossas crenças sobre conceitos referentes ao mundo
físico podem ser chamadas de representações
primárias;
ü
as nossas crenças sobre o estado mental das pessoas (como
por exemplo seus desejos) são representações de representações. Podem então ser
denominadas representações secundárias ou
meta-representações.
A
teoria cognitiva sugere que no autismo, a capacidade de meta-representações
encontra-se alterada, fazendo com que ocorra alteração nos padrões de interação
social. Dessa maneira:
ü
o autismo é causado por um déficit cognitivo central;
ü
um desses déficits refere-se à capacidade para
meta-representação;
ü
essa meta-representação é requerida nos padrões sociais
que envolvem a necessidade de atribuir estados mentais ao outro.
Assim, há padrões que não requerem essa
capacidade meta-representacional (como, por exemplo, o reconhecimento de
gênero, permanência do objeto ou auto-reconhecimento no espelho); podem estar
intactos no autismo, conforme esclarece Baron-Cohen, (1991):
ü
a capacidade meta-representacional é obrigatória em
padrões simbólicos (como nos jogos);
ü
os padrões pragmáticos também requerem a presença dessa
meta-representação, razão pela qual se encontram alterados no autismo.
Essa
teoria cognitiva pode ser visualizada graficamente no diagrama a seguir:
DÉFICIT NA CAPACIDADE DE
META-REPRESENTAÇÃO
![]()
![]()
FALHA NA “TEORIA DA MENTE” DÉFICIT NOS PADRÕES DE SIMBOLIZAÇÃO
![]()
![]()
![]()
Padrões
específicos comprometidos. Outros padrões conservados Déficits
no Déficits
nos padrões de jogo social
pragmatismo