A partir desses dados, pode-se
considerar que a síndrome autista é uma entidade clínica, com características
razoavelmente definidas, principalmente em nível cognitivo. Tal fato
possibilita a avaliação da dinâmica familiar dos pais de seus portadores, uma vez
que a sua educação e seu processo de socialização cabe à família
independentemente de processos de habilitação e tratamento. Sendo o autismo uma
doença crônica, exige da família uma série de mudanças no seu dia a dia para
absorver em sua dinâmica um elemento com tal deficiência no processo de
desenvolvimento.
Família
As
leituras realizadas e as pesquisas feitas na literatura especializada
contribuíram, justificaram-se pela preocupação em chegar à compreensão do que
se denomina família. O conceito tornou-se importante na realização deste
trabalho porque foi nesse grupo específico que se propôs investigar os padrões
interacionais frente ao autismo.
De
acordo com Da Matta (1987), “uma reflexão mais crítica sobre a família permite
descobrir que entre nós, ela não é apenas uma instituição social capaz de ser
individualizada, mas constitui também e principalmente um valor”. Assim, a
família é um grupo social, bem como uma rede de relações. Funda-se na
genealogia e nos elos jurídicos, mas também se faz na convivência social
intensa e longa. É um dado de fato da existência social e também constitui um
valor, um ponto do sistema para o qual tudo deve tender.
Figueira
(1987), referindo-se à dimensão invisível da mudança social com relação à
família, ao que significa ser moderno e acompanhar transformações, afirma: “no
momento, o moderno convive com o arcaico na família brasileira de modos sutis e
complexos, que só recentemente começam a ser estudados”.
Famílias
são estudadas por vários segmentos da ciência em diferentes dimensões
espaço-temporais e, possivelmente, nenhum estudo esgotará o assunto ou
fornecerá respostas para todos os questionamentos.
Segundo
Cerveny (1982), a família é um sistema dentro do qual pessoas vivem no mesmo
espaço físico e mantêm relações significativas, as quais são chamadas de
relações de interdependência entre os seus vários subsistemas .
Para
a realização deste estudo, embasou-se na definição de família de Wynne (1984),
centrada na prática da terapia familiar. Para o autor, a constelação familiar
disponível, para uma terapia familiar exploratória, é aquela em que, entre os
seus elementos, há uma ordem de relações contínuas e significativas
emocionalmente.
Pôster
(1981) argumenta que uma teoria sobre família deve levar em consideração sua
análise no nível psicológico, no nível da vida cotidiana e, por último, na
relação entre família e sociedade.
Pensando
nas relações do grupo familiar, segundo a teoria de sistemas, pode-se dizer
que, nele, o comportamento de cada um dos membros é independente do
comportamento dos outros. O grupo familiar pode, então, ser visto como um
conjunto que funciona como totalidade e no qual as particularidades dos membros
não bastam para explicar o comportamento dos demais. Assim, a análise de uma
família não é a somatória das análises de seus membros individuais. Os sistemas
interpessoais, como a família, podem ser encarados como circuitos de
retroalimentação, dado que o comportamento de cada pessoa afeta e é afetado
pelo comportamento de cada uma das outras pessoas.
Segundo
Macedo (1991), “a característica do padrão de interação de um sistema é a
circularidade, que a interação envolve em uma espiral de feedbacks recursivos, ao contrário da relação linear”.
No
sistema familiar tal fato significa que cada membro do sistema influencia os
outros, sendo ao mesmo tempo influenciado por eles. Essas influências mútuas
são o cotidiano da vida familiar.
Sluzky
(1984) chama a atenção para a facilidade com que se sobrepõe o conceito de
sistema e família, chegando à produção de uma literatura na qual, às vezes,
família e sistema costumam aparecer como se fossem sinônimos: “A família não é
um sistema. Uma família é o que uma família é. Podemos pensar acerca de uma
família através de uma perspectiva sistêmica, sob uma ótica sistêmica,
utilizando um modelo sistêmico, e deste modo, dizer a família é um sistema de
relações”.
Assim,
neste trabalho, pretende-se verificar os efeitos da desordem do desenvolvimento
das crianças nos pais e suas relações. Também, entendê-la do ponto de vista do
contexto da família como experiência pertinente ao grupo familiar,
considerando-a um sistema que se inter-relaciona com sistemas mais amplos da
comunidade, da sociedade e da cultura. As desordens do desenvolvimento da
criança afetam a família em muitos aspectos, inclusive pelos canais de relação
com os sistemas com os quais se relaciona circularmente.
O
diagnóstico de um filho com síndrome autista é visto como um momento de crise e
de luto, posto que ocorre um desequilíbrio entre a quantidade de ajustamento
necessária e os recursos imediatamente disponíveis para lidar com o problema. O
impacto da doença do filho sobre os pais provoca uma demanda sistêmica de ordem
emocional na família e relacional, além daquilo que a mesma pode dar conta, sem
que seja preciso recorrer à ajuda externa, relata Knobell,(1986). Portanto, o
desequilíbrio desse e de outros momentos no ciclo vital da família vêm da
necessidade de continuar desempenhando os diversos papéis, com a sobrecarga do
problema da criança autista, necessidades e reações dos demais elementos da
família, agravados pelas reações próprias à sintomatologia do sentimento de
perda individual e familiar.
A
reorganização familiar só poderia se dar após a superação do momento crítico,
que não tem tempo definido, pois depende de cada caso e de como a família reage
a tais situações, as quais por si só, dificultam a mudança adaptativa à
situação problema.
Para
conviver com a sua nova realidade a família necessita rearranjar o sistema
familiar e, como conseqüência, construir um novo nível de equilíbrio. Assim, é
importante considerar que esse impacto não é somente imediato à descoberta do
problema, mas pode ser identificado em outros momentos do ciclo vital do
indivíduo e da família em diferentes comportamentos ou formas de reações.
Portanto,
ao se avaliar o funcionamento familiar a partir das mais diversas queixas, é
necessário pensar clinicamente sobre elas, analisando a possibilidade de serem
manifestações atuais ou de problemas anteriores não resolvidos, que tomam nova
forma diante de um paciente definido como problemático.
O
impacto de uma doença como o autismo - que
altera o ritmo de desenvolvimento do indivíduo - é visto
como luto por vários autores, como Walsh, (1988) e McGoldrick, (1991). Os pais
anseiam pela criança perfeita, que
seja saudável, vigorosa, esperta e cheia de energia, o suficiente para efetivar
os seus sonhos por eles não realizados. Quando uma criança nasce com alguma
inabilidade, esses sonhos e fantasias podem morrer de forma dolorosa. Raphael
(1983) e Bynghall (1991) mostram, em prática clínica, várias evidências a esse
respeito ao considerarem a família como realidade social e não soma de
realidades individuais.
As
variáveis que se interpenetram envolvem problemas em diferentes escalas:
dificuldades no desempenho de papéis familiares e não familiares, sintomas
físicos decorrentes do sofrimento a que são expostos, casos de insônia,
depressão e cefaléia, falta de um contexto para a expressão de culpa e de
raiva. Essas são evidências dos sentimentos que permeiam as inter-relações
familiares frente as estratégias de enfrentamento a uma doença orgânica
infantil crônica ou por uma condição limitante dela decorrente.
Bowlby
demonstra que um indivíduo (adulto ou criança) ao sentir segurança tem menor
predisposição a ansiedades e medos crônicos ou agudos do que indivíduos
inseguros emocionalmente. A possibilidade de a criança tornar-se mais
independente e enfrentar o mundo surge da crença inconsciente de que pode se
afastar porque tem para onde voltar e, em caso de necessidade, com quem contar.
A criança torna-se ansiosa e insegura quando adultos não lhe proporcionam a
necessária segurança. Neste trabalho a pesquisadora enfatiza o desenvolvimento
da criança, e como esse processo é afetado pelas relações familiares.
Evidentemente
a relação mãe-criança ou pai-criança não ocorre num vácuo, mas interage com
todos os elementos e subsistemas do sistema familiar mais amplo. Este, por sua
vez, é afetado por representações mentais construídas no passado, ou seja, por
famílias de origem e história de vida dos progenitores da criança. É afetado
também por representações mentais sobre o futuro. A qualidade do cuidado
parental oferecido a uma criança é influenciado ainda por inúmeras variáveis
externas à família (a situação sócio-econômica e cultural), assim como internas
ao sistema (qualidade da relação conjugal) Da mesma maneira, as características
de uma criança atuam sobre os demais membros da família e afetam o sistema como
um todo.
Em
experiência clínica a pesquisadora constatou que famílias incapazes de
expressar sentimentos, por medo de fragilizar elementos do grupo ou pelas
próprias dificuldades frente ao problema, formam sintomas. Tais sentimentos,
por sua vez, devem ser explicitados no âmbito familiar, para que possam
adquirir novo significado e, se possível, serem elaborados. A terapêutica com a
família pode facilitar a convivência com a realidade de pais e irmãos de uma
criança autista. A reação do pai ou da mãe tem extrema importância, pois permite
ou não à criança a possibilidade de lidar com sua realidade, mesmo em condições
limitantes. Os pais deprimidos frente a situação problemática, não podem cuidar
dos filhos não-problemáticos da mesma forma que faziam antes. Tentam esconder a
sua tristeza, por achar que, para esses filhos é uma carga muito pesada.
Esclarece-se que essa dinâmica, independentemente do caminho tomado, é alterada
e interfere nas inter-relações do grupo. Assim, os irmãos da criança autista
podem sofrer problemas em conseqüência dos conflitos emocionais de seus pais. A
infelicidade silenciosa traz mais problemas para o núcleo familiar do que a
expressão aberta dos próprios sentimentos. Se for possível estabelecer uma
atmosfera de permissão para a expressão da dor e das dificuldades do cotidiano,
pode-se estar trabalhando para o equilíbrio da família. A flexibilidade da
família ajuda a lidar com a dor e conseqüentemente favorece a realização de
tarefas necessárias a adaptação da criança com o autismo.
As
famílias, quando passam por essa experiência ao longo do ciclo vital, tornam-se
mais vulneráveis a problemas em sua dinâmica. Bromberg (1994) recomenda que
sejam traçados padrões de adaptação à perda, como parte de uma rotina de
avaliação do funcionamento familiar. As famílias com crianças atípicas têm
maiores dificuldades de adaptação ao longo do ciclo vital. Sua avaliação também
mostra limites pelo próprio desgaste a que se submetem na busca de solução para
o seu problema. Gofman (1981) observou que a posição ocupada na sociedade pelas
pessoas com algum tipo de limitação é semelhante a de grupos étnicos menos
privilegiados e à de grupos religiosos minoritários, cuja limitação afasta as
minorias de diversas vias de competição.
Essas
famílias sofrem restrições em todos os setores da vida. Famílias com tendência
à instabilidade emocional, quando descobrem uma imperfeição mais grave em algum
dos seus filhos - caso da síndrome autista - tendem a entrar em crise
permanente. A família tem a tarefa de educar, sustentar, proteger e socializar.
Em função dessas colocações, identifica-se nas famílias, problemas quanto a
comunicação, regras, papéis, lideranças, manifestações de agressividade,
afeição física, individualização, integração e auto-estima - categorias que serão avaliadas neste estudo.
Família e saúde mental
A
família, anteriormente, era considerada hierarquicamente secundária do ponto de
vista de tratamento e habilitação de pessoas mentalmente enfermas, inclusive,
afastadas do processo psicoterápico. A unidade de diagnóstico e tratamento era
o indivíduo, por partir-se do princípio de que a pessoa podia mudar e curar-se quando afastada de seu
contexto social e tratada isoladamente. Os problemas do desenvolvimento
infantil, hoje, são vistos como problemas do portador, de sua família e da
comunidade, influindo na sociedade por todas as suas conseqüências
Portanto,
cada vez mais é questionada a participação da família no processo de
diagnóstico e tratamento, visto que cresce a necessidade de se preencher um vazio proveniente do desconhecimento
das verdadeiras relações familiares daquelas pessoas assistidas pela equipe
multiprofissional. O primeiro passo para a abordagem familiar tem lugar no
tratamento infantil, no qual a segregação do paciente e terapeuta começa a ser
quebrada pela mãe, que tem sido crescentemente, objeto de terapia
A
participação apenas da mãe manteve-se durante muito tempo, deslocando-se a
segregação para os demais membros do grupo familiar, inclusive o pai,
ocasionando a permanência de problemas similares referentes à unidade de
tratamento.
Somente
a partir da década de 50 é que se começa a abordar a família de forma direta.
Constata-se de tal fato nos relatos de Sullivan (1953), em estudos
desenvolvidos por equipes de profissionais de saúde mental situados em diferentes
regiões geográficas, mais especificamente nos Estados Unidos, na França, na
Inglaterra e na Argentina, os quais, embora dirigidas ao mesmo objeto - a família -
trabalharam a partir de distintas abordagens.
Provavelmente
tal mudança na unidade de diagnóstico e tratamento foi proveniente, entre
outros aspectos, de terem sido mais enfatizadas as unidades sociais e de
influência e interesse crescentes na Teoria dos Sistemas, determinando assim
maior interesse pelo contexto da pessoa e de suas relações com as demais. A
partir daí começou-se a pensar na função social da psicopatologia,
compreendendo-se a enfermidade mental como a expressão das relações
significativas da pessoa com seu grupo social, além de seus processos psíquicos
internos. Do mesmo modo, os conceitos familiares puderam fornecer subsídios
para uma nova teoria sobre os distúrbios emocionais.
No
aspecto etiológico, ocorreu também uma mudança de enfoque ao se ampliar o campo
de relações com a hipótese de que a esquizofrenia era produto de certa classe
de relação, na qual os sintomas de uma pessoa começaram a ser percebidos como
uma conduta em resposta a outra pessoa. Em outras palavras, o núcleo do
problema estaria além da pessoa individual, havendo correlação entre processos
psicológicos dinâmicos da conduta de um indivíduo com a conduta da família da
qual faz parte.
O
primeiro passo foi dado no campo da esquizofrenia. Partindo da fundamentação
teórica de que tal patologia era produto da relação mãe-filho, abordando apenas
o aspecto etiológico da questão, ocorreu uma mudança de enfoque ao ser ampliado
o campo de relações pela formulação da hipótese de que a esquizofrenia era
produto de certa classe de relação.
Em outras palavras, o núcleo do problema foi considerado além da pessoa
individual, havendo uma correlação entre os processos psicológicos dinâmicos da
conduta de uma pessoa com a conduta da família da qual faz parte.
Atualmente,
os problemas relativos à saúde mental compreendem desde o indivíduo até a
estrutura inteira da comunidade, que são inclusive afetados pelo rápido
processo de transformação da sociedade contemporânea, tornando difícil uma
percepção adequada da realidade externa. Tal realidade, por sua vez, constitui
critério básico de saúde mental. Ao considerar que a identidade de uma pessoa
é, ao mesmo tempo, individual e social, os critérios para saúde e enfermidade
mental devem abranger tanto o indivíduo inserido no grupo como o próprio grupo.
Há um interjogo de processos de diferenciação e combinação na qual a identidade
individual se desenvolve em função da identidade familiar e esta, por sua vez,
em função da comunidade.
Segundo
Ackerman (1986),“as relações entre a personalidade do indivíduo e os processos
de dinâmica de grupo da vida em família constituem um elo essencial na cadeia
de causalidade dos estados de enfermidade e saúde mental”.
As
mudanças adaptativas da estrutura familiar acontecem em função de sua
organização interna e de sua posição externa na sociedade. Quando isso ocorre
como resposta à mudança social, os vínculos afetivos podem ficar fortalecidos
ou enfraquecidos. A configuração familiar pode oferecer tanto modelos de êxito
quanto de fracasso em sua atuação pessoal e social. Portanto, pode-se
considerar que a adaptação ocorre em função do potencial de integração da
personalidade da pessoa e do caráter psicológico do seu grupo familiar.
Na
relação recíproca entre família e sociedade - fundamental este estudo - vale
ressaltar que a influência da organização social é determinante para a
modelagem da estrutura e funcionamento da família, a medida em que é daquela
sociedade que emanam as diretrizes gerais reguladoras dos procedimentos do
homem em sociedade (estrutura política, econômica, direitos e deveres do
cidadão).
Considerando
a família uma instituição social básica, derivada portanto da organização do
Estado, observa-se que suas características não só refletem essa organização,
mas também servem aos propósitos do Estado como condição para a continuidade de
sua existência. Daí cada sistema social apresentar um tipo de família
específico, conforme salienta Ariés, (1981).
Em
decorrência, acredita-se que o profissional de saúde mental se encontra em situação de risco e sua atuação
comprometida, caso ele não seja capaz de pensar e dirigir sua ação terapêutica
considerando e avaliando as características das regras sociais vigentes.
Significa que tal profissional só poderá atender e abordar a família se tiver
conhecimento sobre a realidade psicossocial.
No
entanto, se o sentimento de família
considerado a partir do ponto de vista de que a estrutura de família se baseia
nos laços afetivos, na intimidade e na individualidade, conforme afirma Ariés
(1981), independentemente de classe social, as necessidades e problemas de
ambas não podem ser os mesmos pelas contingências de vida de cada uma.
Portanto, as teorias correntemente usadas para explicar sua dinâmica, baseadas
na família burguesa, necessitam ser reformuladas para atender suas respectivas
peculiaridades.
No
que concerne à família brasileira, seria oportuno lembrar o estudo de Costa
(1979) com referência à atuação dos profissionais de saúde na sociedade.
Pesquisando a família através de sua história sócio-econômica, política e
cultural (desde a família colonial até a família burguesa contemporânea)
infere-se que agentes sociais, principalmente pedagogos e higienistas, os quais
enquadram o tempo e o espaço do cotidiano familiar, regularizam afetos e
condutas de seus membros mediante recomendações e estabelecimento de normas
educativas que acabam por imprimir nestes, sua configuração atual.
Do
ponto de vista psicológico, é fato conhecido que o fator sócio-cultural
constitui um dos aspectos vinculados à saúde mental e às doenças neuróticas e
psicossomáticas, que tanto os indivíduos como as famílias variam dentro de uma
ampla escala de possibilidades psicológicas, cujo resultado final se obtém no
modo em que cada família vai refletir, de uma maneira própria, a influência de
seu meio. Assim, os transtornos afetivos de uma pessoa podem ser considerados
como sintomas de um conflito familiar, e a mesma analogia pode ser feita quanto
à família com relação à sociedade. A sociedade funciona como reguladora das
condutas individuais e grupais.
Com
o crescente aumento da literatura sobre a família e da prática da terapia
familiar, pode-se constatar ser ainda muito heterogêneo o campo que abarca o
conceito de terapia familiar, conseqüência da variedade de teorias,
não-raro abrangendo distintas constelações de tratamento, combinadas ainda com
outros tipos de terapia (não-familiar). Mas, apesar das variadas formas de
tratamento decorrentes de distintas orientações de pesquisadores e terapeutas
de família, elas compartilham da mesma idéia ou princípio: a unidade de
tratamento excede a pessoa individual, e tem como objeto o conflito familiar
visando à sua resolução total ou parcial. Tal constatação pode ser tomada como
critério para qualificar a terapia familiar, conforme afirma Haley em 1979.
A
terapia utiliza conceitos de saúde mental e saúde social e, ao abordar um grupo natural (família), focaliza as
relações entre suas funções psicossociais e o desenvolvimento emocional de seus
membros, contribuindo assim para a construção de uma teoria dinâmica das
relações entre indivíduo, família e comunidade. Tendo em vista tais conceitos,
o interesse da pesquisadora pela dinâmica da família da criança autista vai ao
encontro da saúde mental e emocional da mesma. Segundo Boszormenyi-Nagy &
Framo (1976), a terapia familiar é caracterizada como apoio, procurando clarificar a comunicação, modificar padrões de
interação e ajudar a família a enfrentar situações reais de tensão.
No
entanto, até o momento atual, a experiência clínica e a investigação sobre o
sistema familiar não conseguiram atingir um estágio que defina a melhor forma
de seu tratamento quando há na família uma criança com problema crônico.
Observa-se atualmente a intensificação das pesquisas desenvolvidas na área,
como as de Richter (1979). Portanto, há adesão crescente de profissionais nesse
campo, refletindo mudança de orientação, principalmente em instituições que
cuidam de saúde mental e se preocupam em cumprir as várias funções sociais,
inerentes por definição à sua própria estrutura.
A
interação entre família e doença pode ser considerada recíproca, ou seja, tanto
a doença afeta a dinâmica familiar quanto o impacto e o curso da doença podem
ser mediados pela interpretação que a família faz da doença. Se a família
interpreta a doença como uma ameaça, a crise produzirá ansiedade/angústia; se a
doença for interpretada como perda, produzirá depressão; se for interpretada
como um desafio, os sentimentos de ansiedade e de esperança serão propulsores
da busca de resolução de problemas, motivação e crescimento da família.
Quando
a doença aparece, os mecanismos adaptativos são quase sempre automáticos e,
algumas vezes, temporários dada a rapidez dessa fase. Na cronicidade ocorrem
processos adaptativos de longo termo, foco de interesse de pesquisadores dadas
as possibilidades de investigação das implicações da doença para o processo de
desenvolvimento da família através do ciclo vital. Enquanto uma das vertentes
enfatiza que pais e mães de crianças com atraso tendem a mostrar altos níveis
de desordens afetivas, como descreve Cummings (1966 e 1967), outros autores,
como Stein (1982), enfatizam a necessidade de enfocar a questão
predominantemente do ponto de vista das dificuldades de enfrentamento, do que
manter um modelo voltado para a doença e suas especificidades.
Mais
especificamente pretende-se, neste trabalho, investigar quais as diferenças aprendidas
e mantidas frente à doença infantil e como a família se organiza em torno dela,
incluindo pesquisa de estresse e alexitimia.
Assim,
a pesquisadora acredita ser possível e viável rever a sua postura profissional,
a fim de tentar conciliá-la frente à ampla demanda e expectativas daqueles que
chegam, principalmente às instituições de assistência à saúde e ensino, e
desenvolver formas de atendimento que procurem ir de encontro às necessidades
dessa população.
De
acordo com Richter (1979), “a preocupação com a necessidade de mudanças
criativas na sociedade leva muitos analistas a assumir, além de seus deveres
profissionais, um trabalho de pesquisador no campo dos problemas sociais.”
Desse modo, pode-se considerar que, neste estudo, o principal objetivo é parte de um movimento mais recente que tenta buscar meios e alternativas de assistência a portadores de distúrbios do desenvolvimento e suas famílias, é simplesmente trazer uma contribuição para os questionamentos que têm emergido nessa área de atuação.