Ä
Grupo B: 15 famílias, cada uma com uma criança com
síndrome de Down diagnosticada clínica e laboratorialmente, na faixa etária de
5 a 15 anos. As crianças foram encaminhadas de forma aleatória por
profissionais da área, a partir de seus serviços de atendimento.
Ä
Grupo C: 15 famílias, cada uma com uma criança
assintomática, na faixa etária de 5 a 15 anos. As crianças foram encaminhadas
por professores ou pessoas conhecidas, de maneira aleatória sem que houvesse
relacionamento familiar com a criança identificada.
Todas as famílias foram informadas
sobre a realização da pesquisa, de caráter científico e, selecionadas,
mostraram-se dispostas a participar voluntariamente do estudo.
A idade dos pais não constituiu fator
de exclusão da família (mas a expectativa era que estivessem na faixa de 25 a
45 anos de idade).
As famílias que compuseram a amostra
foram avaliadas quanto ao funcionamento familiar, através da entrevista E.F.E.
(Carneiro, 1983), instrumento de pesquisa já validado segundo a sua própria
autora. Mediante sua aplicação identificam-se os padrões de funcionamento
familiar. Quanto maior o número quantificado na escala, pior o funcionamento na
categoria avaliada (Anexo 1).
Segundo Carneiro (1983), a E.F.E.
permite analise e quantificação de categorias comunicação, regras, papéis
liderança, conflitos, manifestação de agressividade, afeição física,
individualização, integração, auto-estima, interação conjugal e interação
familiar facilitadora de saúde emocional nos seus membros. O instrumento E.F.E.
foi aplicado em cada família após o estabelecimento dos primeiros contatos que
a definiam como participante da pesquisa, com todos os elementos do grupo
presentes.
Neste trabalho procurou-se avaliar as
seguintes categorias:
Definida como qualquer comportamento verbal ou não
verbal manifestado por uma pessoa-emissor em presença de outra-receptor. Cada
unidade comunicacional é chamada de mensagem.
Ao mesmo tempo em que a comunicação
transmite uma informação, define a natureza das relações entre os comunicantes.
Segundo Bateson (1975), as duas operações constituem, respectivamente, os
níveis de relação e de ordem presentes em qualquer comunicação. O nível de
relato transmite o conteúdo da comunicação (comunicação propriamente dita) e o
nível de ordem mostra como essa comunicação deve ser entendida,
(metacomunicação).
Ao se analisar comunicação entre
membros de uma família, focaliza-se quatro importantes distúrbios:
Ä Incongruência:
os níveis de relato e de ordem não se reforçam mutuamente, ou seja, um contraria
o outro ou, ainda, quando diferentes mensagens emitidas por um comunicante
relacionadas a determinado tema se contradizem mutuamente.
Ä Confusa:
quando o emissor utiliza frases incompletas, estilo obscuro, mudanças bruscas
de assunto e linguagem pouco explícita, dificultando o entendimento pelo
receptor das mensagens a ele transmitidas.
Ä Sem direcionalidade adequada: quando as mensagens do receptor não são sempre
dirigidas a pessoas do grupo. Pode ocorrer duas situações: ou as mensagens são
dirigidas a um receptor manifesto que não corresponde ao receptor de fato, ou
elas são comunicadas ao grupo de forma impessoal, levando a discursos gerais.
Ä Sem carga emocional adequada: quando as mensagens são transmitidas como se nada
além do conteúdo das mesmas fosse importante para o emissor, que controla e
contém toda a emoção a elas relacionada; ou, emitindo-as sem carga emocional
intensa acabando por ofuscar o conteúdo das mesmas, impedindo seu entendimento
por parte do receptor (Watzlawick, 1987).
As regras, que estão relacionadas à organização
familiar, são indicadores do desenvolvimento sadio dos membros da família. Todo
grupo social possui regras ou normas que regulam o seu comportamento. A regra
comportamental se define quando é aceita pela maioria do grupo. A família com
regras definidas tem um funcionamento, que quando observado, consegue definir o
seu comportamento. O funcionamento deve ser passível de mudanças. As pessoas
instituem regras, no entanto, sabem alterá-las para beneficiar o grupo. O modo
de comportamento é claro para todos os membros da família. As regras devem ser
aceitas pelos pais e pelos filhos para a melhor definição do comportamento da
família.
A saúde emocional da família é também definida por
desempenho e cumprimento das funções familiares essenciais relacionadas aos
papéis de marido, mulher, pai, mãe, filho, filha, irmão, irmã. O conhecimento e
desempenho de cada papel específico coloca seus membros frente a saúde
emocional da família. Todos os elementos do grupo têm papel definido. Todos
devem desempenhar seu papel. Há, muitas vezes, inversão de papéis por parte dos
filhos e por parte dos pais.
O desenvolvimento emocional sadio de uma família
também é medido por aspectos de liderança. O funcionamento eficaz da
organização de uma família requer que pais e filhos aceitem o fato de o uso
diferenciado de autoridade ser necessário no sistema familiar. A família é uma
reprodução do social amplo e, por isso, não é um grupo de iguais. Há
necessidade de liderança, que pode ser fixa ou alternada, dando oportunidades
aos demais elementos da família.
Refere-se a atitudes subjetivas frente às
realidades externa e interna, mediante as quais se aceita ou rejeita alguma
coisa. A afetividade pode ser avaliada tanto por expressão verbal quanto
física.
Comportamento não-verbal, manifestado pelos membros
da família por intermédio de contatos físicos carinhosos para expressar o afeto
que sentem uns pelos outros.
O papel da manifestação da agressividade no
desenvolvimento emocional dos membros da família é ressaltado como importante
na interação familiar. Consideram-se comportamentos agressivos aqueles nos
quais os sentimentos de raiva e hostilidade experimentados em algumas situações
podem ser expressos. Entre os comportamentos agressivos estão palavras,
olhares, atitudes que expressam os sentimentos de raiva e hostilidade. A
agressividade pode ser dirigida a um dos elementos do grupo ou a todos. Pode
também partir de um elemento para o outro. Importante colocar que a
manifestação de sentimentos agressivos deve ser favorecida para não seguir
rumos destrutivos. A manifestação de agressividade torna-se destrutiva quando
os comportamentos impedem ou eliminam a possibilidade de serem encontradas
soluções para a situação que provoca raiva ou hostilidade. As reações
agressivas podem ser explícitas, sistemáticas, dirigidas a alguém do grupo ou,
ainda, serem veladas.
A interação conjugal é importante para o
desenvolvimento emocional dos membros da família. O subsistema conjugal pode
fomentar criatividade e crescimento, respeitando a individualidade de cada
membro do casal, como também estabelecer padrões de comportamento inibidores de
tal crescimento. A individuação do casal deve ser mantida no subsistema
conjugal, mas com limites claros e flexíveis que a mantenham diferenciada e não
isolada dentro do sistema. A interação conjugal é o processo de trocas
relacionais estabelecidas no subsistema conjugal, ou seja, entre marido e
mulher. A interação ocorre quando as necessidades e ações de um complementam as
do outro, havendo respeito mútuo. As experiências básicas não são satisfeitas,
não são compartilhadas.
Quanto a interação familiar, a
experiência tem demonstrado que a compreensão da dinâmica familiar, sem prévio
entendimento do conceito de estrutura, torna-se difícil. Sua importância acaba
sendo central, se levar em conta o fato de o presente trabalho estar
compreendido dentro de um modelo sistêmico. Especialmente referindo-se a grupos familiares, eles são compreensíveis
enquanto sistemas moldados em estruturas. A estrutura reflete a maneira como as
partes desse universo sistêmico estão organizadas entre si. A estrutura é a
ordem, a disposição das partes de um todo, sua distribuição e ordenação.
As famílias dos três grupos que
formaram a amostra da pesquisa foram estudadas pela aplicação do referido
instrumento de avaliação, privilegiando as categorias retrodescritas, o que
permitiu observar-se um padrão de funcionamento familiar. Após procedida tal
avaliação, os pais (pai e mãe) foram entrevistados, respondendo a questionário
para avaliar alexitimia (Anexo 2) e sintomas de estresse (Anexo 3).
O conceito de alexitimia foi
formalizado em 1960, por Sifneos & Nemiah. Para eles, alexitimia é um
conjunto de características psicológicas observadas em pacientes com problemas psicossomáticos. Os pacientes
com tal distúrbio tem como característica principal dificuldade em exprimir
verbalmente suas emoções, relacionar as emoções e os pensamentos e elaborar
representações mentais complexas. Apresentam também dificuldades relacionais. A
tendência desses pacientes é agir de forma impulsiva. As pessoas com alexitimia
têm dificuldade para simbolizar afetos e conflitos.
O instrumento utilizado, neste caso,
foi a escala de Vozonto (T.A.S.) para a avaliação de alexitimia, em função de
considerar-se a dificuldade de expressão de afeto nas famílias de crianças
autistas.
O conceito de estresse surge a partir
da descrição do médico canadense Hans Selye (1963), como uma forma de reação
inespecífica a uma solicitação (Pierrotti, 1997). Tal reação ocasionaria
alterações nas três funções da emoção: adaptação corporal, comunicação social e
experiência subjetiva (Buck, 1987).
O inventário para a detecção de
sintomas de estresse, validado por Lipp (1994), possibilita não somente
detectar a sintomatologia, mas também caracterizar sua forma física ou
psíquica, bem como a fase de estresse em que o paciente se encontra: se em fase
de alarme, de adaptação ou de esgotamento.
Após tais avaliações, os dados foram
comparados por testes estatísticos visando verificar semelhanças ou diferenças
entre os grupos estudados no que se
refere à dinâmica familiar à alexitimia e ao estresse.
Quanto às categorias avaliadas, o
instrumento estatístico utilizado para a comparação entre os grupos de famílias
foi o teste c2. Os resultados do
questionário sobre alexitimia também foram avaliados pelo c2. Os
dados obtidos pela aplicação dos questionários sobre estresse foram avaliados
mediante a prova de Wilcoxon.
O
teste do Qui quadrado é adequado para analisar dados nos quais as
categorias são duas ou mais. Para a sua utilização deve ser considerada a
comparação entre duas amostras, com dados pertencentes a cada variável mensurada,
ou seja, freqüência, retirados de uma amostra aleatória de uma população
particular e com freqüências significativas (ou seja número total igual ou
superior a 30). Para freqüências menores que 10, utilizando o teste c2,
torna-se necessária a correção de Yates (Levin, 1987).
A prova de Wilcoxon visa a
estudar o valor das diferenças dentro de pares, atribuindo-se maior ponderação
a um par que acusa diferenças entre as condições estabelecidas. Assim, a partir
dela, pode-se identificar qual membro do par em estudo é maior, bem como dispor
as diferenças por ordem de seu valor absoluto (Siegel, 1975). Em outras
palavras as provas foram utilizadas em função de tratar-se de estatística
não-paramétrica com variável ordinal (segundo nível de mensuração) na qual a
variável é somente ordenável e não quantitativa.
Os dados conclusivos fornecidos pelas
categorias constitutivas das escalas vistas anteriormente, foram
correlacionados com os demais, obtidos pelo inventário de sintomas de estresse
(ISS) e a alexitimia, pela escala de Toronto (T.A.S).
Assim, foram estabelecidas correlações
entre os conflitos e as perturbações na dinâmica familiar da criança autista,
da portadora da síndrome de Down, e da criança assintomática. Dessa forma
tentou-se comprovar empiricamente as hipóteses propostas neste trabalho.
Acredita-se que, mediante os
instrumentos de pesquisa descritos, foi possível avaliar efetivamente os
conflitos e as perturbações na dinâmica das famílias pesquisadas, além de se
conhecer aspectos objetivos-subjetivos vinculados à presença do autismo nessas
famílias com relação às outras famílias estudadas.
RESULTADOS
A
amostra estudada apresentou as seguintes características:
ü
Na população com crianças autistas, os pais apresentaram
idade média de 42,26 anos (± 6,58);
as mães de 39,33 anos (± 7,02) e
os filhos autistas 11,86 anos (± 4,38).
Cinco famílias representaram a nova pequena burguesia, oito a pequena burguesia
tradicional e duas o subproletariado, conforme a classificação de Lombardi et al. (1988).
ü
Na população com crianças portadoras de síndrome de Down,
os pais apresentaram idade média de 41,44 anos (± 6,76);
as mães de 40,26 anos (± 6,65) e
as crianças 9,46 anos (± 3,32).
Sete famílias representaram a nova pequena burguesia, cinco a pequena burguesia
tradicional e três o subproletariado (Lombardi et al., 1988).
ü
Na população com filhos assintomáticos a idade média dos
pais foi de 40,53 anos (± 12,89);
das mães foi de 38,8 anos (±12,04) e
dos filhos 11,04 anos (±3,57).
Nove famílias representaram a nova pequena burguesia, cinco a pequena burguesia
tradicional e uma o subproletariado (Lombardi et al., 1988).
Não houve, portanto, diferenças significativas no que se
refere à idade dos pais e dos filhos, bem como ao grupo social das famílias
estudadas.
Considerando-se
então a metodologia proposta e a população estudada, foram obtidos os
resultados apresentados a seguir, subdivididos nas três categorias avaliadas:
Ä
estresse
Ä
alexitimia
Ä
dinâmica familiar
2.1.
Estresse
Tabela 1
(fase de
alerta)
|
Famílias |
Presença |
Ausência |
Total |
|
Assintomáticos |
8 |
7 |
15 |
|
Autistas |
4 |
11 |
15 |
Total
|
12 |
18 |
30 |
2
c = 2,22
não-significativo
0
Não
há diferença significativa na presença ou ausência de estresse entre as
famílias com crianças assintomáticas e autistas com relação à mãe.
Tabela 2
(fase de
resistência)
Famílias
|
Presença |
Ausência |
Total |
|
Assintomáticos |
10 |
5 |
15 |
|
Autistas |
11 |
4 |
15 |
Total
|
21 |
9 |
30 |
2
c = 0,16;
não-significativo
0
Não existe diferença significativa na presença ou ausência
de estresse entre as famílias com crianças assintomáticas e autistas com
relação à mãe, embora exista o estresse. As mães de ambas as famílias são
igualmente estressadas.
Tabela 3
(fase de
exaustão)
|
Famílias |
Presença |
Ausência |
Total |
|
Assintomáticos |
4 |
11 |
15 |
|
Autistas |
7 |
8 |
15 |
Total
|
11 |
19 |
30 |
2
c = 1,29;
não-significativo
0
Não
há diferença significativa na presença ou ausência de estresse entre as
famílias com crianças assintomáticas e autistas na fase exaustão com relação à
mãe.
Tabela 4
(fase de
alerta)
|
Famílias |
Presença |
Ausência |
Total |
|
Assintomáticos |
1 |
14 |
15 |
|
Autistas |
2 |
13 |
15 |
Total
|
3 |
27 |
30 |
2
c = 0,37;
não-significativo
0
Não há diferença significativa na presença ou ausência de
estresse entre as famílias com crianças assintomáticas e autistas, com relação
ao pai.