2.2.  Alexitimia

Tabela 31

Alexitimia : Autistas

Família

Pai

Mãe

  1

81

91

  2

67

84

  3

59

68

  4

67

54

  5

59

64

  6

84

61

  7

75

91

  8

92

74

  9

63

49

10

45

56

11

59

61

12

71

54

13

75

58

14

71

54

15

45

67

Total

1013

986

 

média pai =    68 > 65          média mãe = 66 > 65

Alexitimia

Pai

Mãe

Total

£ 65

6

9

15

> 65

9

6

15

Total

15

15

30

 

    2

c   = 1,5; (não-significativo; a = 0,05)

   0

 

Pode ser inferido que ambos os genitores não diferem quanto à expressão de afeto, tanto pai quanto mãe tem dificuldade de expressá-lo.

Tabela 32

Alexitimia: assintomáticos

Família

Pai

Mãe

  1

45

61

  2

59

68

  3

52

64

  4

74

48

  5

67

54

  6

88

74

  7

71

58

  8

77

48

  9

45

67

10

77

71

11

75

71

12

74

68

13

48

68

14

92

41

15

84

78

Total

1028

939

 

média pai =    68,5 > 65   média mãe = 62,6 < 65

 

Alexitimia

Pai

Mãe

Total

£ 65

5

7

12

> 65

10

8

18

Total

15

15

30

 

    2

c   = 1,5; (não-significativo; a = 0,05)

   0

 

Nesta amostra, o pai apresenta dificuldades na expressão de afeto, ao contrário da mãe.

 

Tabela 33

Alexitimia : síndrome de Down

Família

Pai

Mãe

  1

59

87

  2

55

48

  3

41

33

  4

81

51

  5

81

68

  6

74

71

  7

59

68

  8

67

74

  9

63

71

10

84

76

11

45

33

12

65

44

13

63

68

14

88

64

15

45

87

Total

970

943

 

média pai =    64,7 < 65  média mãe = 62,9 < 65

 

Alexitimia

Pai

Mãe

Total

£ 65

9

6

15

> 65

6

9

15

Total

15

15

30

 

    2

c   = 1,2; (não-significativo; a = 0,05)

   0

 

Ambos, pai e mãe não têm dificuldades na expressão de afeto.


2.3. Dinâmica Familiar

 

Tabela 34

Autistas x famílias assintomáticas

Dinâmica

Família

 

Dificuldade

 

Facilidade

 

Total

Autista

13

2

15

Assintomática

7

8

15

Total

20

10

30

 

    2

c   = 5,4; (significativo; a = 0,05)

   0

 

As famílias com crianças autistas são, portanto, significativamente menos facilitadoras de saúde emocional.

 

 

Tabela 35

Autistas x síndrome de Down

 

Dinâmica

Família

 

Dificuldade

 

Facilidade

 

Total

Autista

13

2

15

Síndrome de Down

14

1

15

Total

27

3

30

 

    2

c   = 0,37; (não-significativo; a = 0,05)

   0

 

As famílias com crianças autistas e portadoras da síndrome de Down têm dificuldades na promoção de saúde emocional.


Tabela 36

Síndrome de Down x assintomática

 

Dinâmica

Família

 

Dificuldade

 

Facilidade

 

Total

Síndrome de Down

14

1

15

Assintomática

7

8

15

Total

21

9

30

 

    2

c   = 7,778; (significativo; a = 0,05)

   0

 

         As famílias portadoras de paciente com síndrome de Down são menos facilitadoras de saúde emocional.

 

         No instrumento utilizado (EEF), os itens positivos nas famílias comprometidas (com autistas e portadoras de síndrome de Down) são:

ü     comunicação

ü     papéis

ü     liderança

ü     manifestação de agressividade

ü     afeição física

 

         Por outro lado, os itens comprometidos cujos scores são iguais a zero, referem-se a:

ü     interação conjugal

ü     individualização

ü     integração

ü   auto-estima

 

CAPÍTULO III

DISCUSSÃO

 

         Para facilitar a análise dos dados obtidos na pesquisa eles foram divididos em três itens: estresse, alexitimia e dinâmica familiar. O cerne do interesse da pesquisadora concentrou-se na dinâmica familiar da criança autista.

 

3.1.  Estresse

         Embora não se constitua o ponto básico deste estudo, mas um dos aspectos estudados na pesquisa, o estresse foi avaliado por ter sido considerado como doença crônica, fator de tensão familiar, levando os familiares a vivenciarem constantes situações de grande exigência. Conforme o observam alguns autores, como Konstantareas & Bethchmar (1991),.o autismo pode favorecer também quadro de estresse nos pais das crianças com problemas. A experiência clínica da autora com famílias de crianças doentes favorece admitir que a doença crônica e incapacitante é fator importante para desencadear estresse nos familiares. Algumas referências feitas pelos pais levam a refletir sobre o tema, mesmo que os resultados deste estudo não corroborem tal hipótese.

“Depois que ele nasceu estou sempre cansada e pouco motivada. Não trabalho mais fora e tenho dificuldades de me organizar nas tarefas diárias. Creio que todos percebem como fico arrasada o tempo todo” (mãe de M., paciente autista).

         Estudo relatado por Konstantareas & Bethchmar (1991) refere que as mães de crianças autistas são mais estressadas que as dos portadores da síndrome de Down. Tal aspecto não foi observado nesta pesquisa, cujos resultados estatísticos não mostram diferenças significativas. Tanto no trabalho de Konstantareas & Bethchmar (1991) quanto neste, porém, nota-se a mãe com maiores scores relativos a estresse. O fator foi observado também por Omega (1996), ao estudar estresse: observa que as mulheres são mais vulneráveis a estresse, tendo como um dos fatores desencadeantes a doença em filhos.

         No trabalho referido, Konstantareas & Bethchmar (1991) observaram ainda que pais de crianças autistas têm saúde precária, humor depressivo e tempo de exigência excessivo, concluindo que a criança deficiente constitui um agente estressor. Pode-se confirmar tal dado em neste trabalho ao observar-se, nas duas amostras de portadores de deficiência as mães com estresse significativo, embora as de pacientes assintomáticos também apresentem estresse em níveis semelhantes.

O trabalho de Ryde-Brandt (1990), avaliando mães de crianças com quadro de psicose da Infância, verificou maior incidência de sintomas de ansiedade e menores recursos de defesa psicológica para enfrentar esses sintomas, quando comparadas às mães de crianças com distúrbios motores portadores de síndrome de Down e crianças normais, resultado que difere daquele encontrado nesta pesquisa, mas desperta o interesse da pesquisadora pelo assunto em função de ampla literatura sobre o tema, confirmado ainda em trabalho clínico.

“A ansiedade de D. me revolta, ela esqueceu que é minha mulher e mãe de M. Não há motivo para isso, no entanto, ela se justifica, tenho que cuidar de O. e leva-lo às terapias, Quando em casa, tenho que treiná-lo. O que sobrou de tempo para mim?. Se não fizer tudo direito, as terapeutas me chamam a atenção e sinto-me culpada. Essa e outras desculpas a justificam para não dar atenção para nós. Acho que hoje ela vive se justificando porque tem um filho doente. Bom, eu também sou o pai da criança e tenho que desempenhar o meu papel de chefe da casa. Quando reclamo, ela fala quer trocar? É pra já. Mas está sempre na dela ( pai de O., paciente portador de síndrome de Down).

No discurso desse pai percebe-se que o filho doente é alvo das atenções de sua esposa e, por isso, ela apresenta comportamento inadequado para com os outros membros da família. Os laços afetivos estão comprometidos, há distanciamento e isolamento entre o casal. Procuram manter um comportamento adaptado a realidade, ou melhor, de acordo com a ótica de cada um. Esses fatores levam a pensar em situações que conduzem ao estresse.

         A habilidade da família em manter-se dentro de uma normalidade sob a presença anormal da doença crônica e da incerteza quanto ao futuro representa uma tarefa para a qual as famílias acabam desenvolvendo um modus operandi, tanto do ponto vista organizacional quanto psicológico. Talvez por esse motivo não se observa estresse com diferenças estatísticas significativas entre as famílias pesquisadas. Paradoxalmente, a família só se dá conta e verbaliza seu desejo de ter uma vida normal quando estimulada a alguma reflexão por profissionais, a exemplo da autora. Neste caso foram entrevistadas, para colaborar com a pesquisa, de forma expontânea, ou seja, não foram buscar ajuda. Assim, a família aparenta uma vida normal com o doente, mas só percebe sua forma de vivência quando se dá conta das falhas que ocorrem no dia a dia.

Na presença de doenças altamente debilitantes e permanentemente crônicas, com prognóstico fechado e, por vezes, não-fatais, a família pode se sentir sobrecarregada com um problema que parece não ter fim. Mas não consegue lidar com o problema e, por isso, não percebe a realidade a ser enfrentada, ou seja, pais de uma criança com limites. Assim, vivem muitos conflitos frente a um problema difícil de ser aceito e vivem buscando alternativas que mudem o curso da doença. Quando isso não ocorre, voltam a se frustrar. São contínuas vivências de perda ao longo do ciclo evolutivo.

Não existe nada mais doloroso para os pais do que a doença crônica de um filho, segundo pesquisa de Elizur & Kaffmam (1983). As famílias não apenas lidam com a tristeza crônica e a permanente incerteza dos resultados, como também precisam ser os ativos cuidadores da criança. Isso significa que um dos pais deve permanecer em casa, em tempo integral, assumindo dolorosas responsabilidades quanto aos cuidados a serem dispensados à criança. O tempo e a energia necessários para lidar com o sofrimento causado pela doença da criança certamente têm um impacto sobre os relacionamentos entre os membros da família. As pessoas que vivenciam tal condição ficam também mais estressadas, geralmente são mulheres conforme relatam Kaplan e colaboradores (1976). Os resultados desta pesquisa são compatíveis com esses dados, incluindo a sobrecarga que, na cultura brasileira é assumido pela mulher quanto aos cuidados com o filho, mesmo considerando as mudanças ocorridas no papel da mulher atualmente. O fato do nível de estresse nas mulheres ter atingido scores mais significativos pode ser justificado por esse dado.

“Não fico contente de ser assim (auto-suficiente). Não tenho jogo de cintura para me amoldar á situação conforme ela é. Sofro muito por isso, tudo para mim é mais difícil, mas me esforço e supero. Imagine como me sinto como mãe de um dependente. Sinto pena da minha condição. Não me adapto a essa situação. Eu não aceito esse filho. É uma tortura sem fim “ (M., mãe de paciente autista)

A família, de modo geral, sem recursos para a elaboração e o enfrentamento do problema, paralisa-se. O estado de choque se mantém, a ameaça de perda permanece. Aparece raiva em forma de rejeição. A situação é critica, é vivenciada uma crise. As relações se desorganizam. Podem levar o par parental ao estresse, pois vivem em permanente tensão e em situações de crise.

         Característica observada por Kato (1994) em trabalho realizado com famílias de doentes crônicos refere-se à manutenção de autonomia para todos os membros da família, face à força exercida pelo contexto da doença no sentido de dependência e cuidados mútuos. As relações dessas famílias, segundo o estudo de Kato, tem uma grande carga emocional. Tal dado é confirmado nesta pesquisa, mostrando também aspectos relacionados ao papel e à função familiar, fatores considerados estressantes. O que leva a considerar o papel da mulher como possível responsável pelo seu estresse, na medida que, nos três grupos pesquisados, não há diferenças significativas.

         Assim posto, os resultados deste estudo têm pontos interessantes para discussão, podem trazer algumas contribuições para a compreensão da dinâmica da família do autista e colaborar no trabalho com ela desenvolvido.

         Não foram observadas diferenças significativas nos níveis de estresse, considerando-se as três fases (alerta, resistência, exaustão) relativas a mães de famílias assintomáticas, autistas e portadoras da síndrome de Down quando comparadas entre si. Esse dado não era esperado uma vez que, pelos dados da literatura, relacionava-se o estresse ao problema de saúde.

No entanto, esse resultado foi também encontrado por Waldron (1983) quando observou índices mais elevados de sintomas em mulheres. Elas fazem mais consultas médicas, inclusive tratamentos preventivos, o que não se observa nos homens. Esses só procuram médicos quando doenças interferem com as suas atividades normais. Neste trabalho, encontrou-se que as mulheres são mais sujeitas a doenças psicossomáticas.

         Estudo realizado por Wolff (1961) sobre reações de pais e mães frente a doenças incapacitantes chama também a atenção pelo pequeno número de indicativos de estresse encontrados. Tal resultado confirma os dados obtidos na amostra pesquisada. Podem existir outros fatores responsáveis, entre eles a responsabilidade do papel da mulher frente às varias funções que exerce como mulher, mãe e profissional na cultura brasileira, com muitas funções, pelo estresse .

         Posteriormente, Holmes e Rahe (1967) buscaram traçar uma epidemiologia das situações típicas causadoras de grande estresse na vida do indivíduo, relacionando-as com a manifestação de doenças graves, principalmente em seus períodos mais agudos. Tal dado não foi confirmado neste trabalho, pois independentemente da doença, o estresse está presente em nível semelhante.

No entanto, não se pode restringir o campo de análise, uma vez que existe uma série de outros fatores predisponentes de natureza genética ou mesmo da própria família para mitigar ou exacerbar o estresse no caso de uma doença grave. Entretanto, Alexander (1981) assinalou que a emoção constitui parte da reação do indivíduo a dado evento ou situação e não a causa da reação. Não é mais possível buscar apoio em trabalhos que enfocam o indivíduo como um ser biológico, embora se reconheça sua sujeição ás flutuações emocionais, as quais são capazes de alterar seu metabolismo e, circularmente, apresentar transtornos psicológicos em decorrência de alterações orgânicas. Assim, com as mudanças do pensar científico, torna-se necessária uma visão mais complexa das interações entre fatores biopsicossociais, ou seja, numa abordagem multifatorial. Com ela abre-se a possibilidade da inclusão do contexto social para melhor compreender as relações entre doença e estresse.