2.2.7
O ciúme e a infidelidade situacional e o ciúme a infidelidade disposicional
O ciúme e a infidelidade amorosa, assim como outros
traços da personalidade, tal como a timidez, dentre outros, podem ser
influenciados por forças situacionais e/ou disposicionais. Dependendo das forças relativas destes
fatores, pode-se falar em “ciumentos situacionais”, “ciumentos disposicionais”,
“perpetradores da infidelidade situacionais” e “perpetradores da infidelidade
disposicionais”.
Para lembrar as distinções entre estes dois tipos
de ciúmes, fornecida anteriormente, o ciumento disposicional é aquele que
apresenta mais, ou até mesmo, menos ciúme do que outras pessoas invariavelmente
em relação às diferentes situações que possam existir (Bringle, 1981;
Greenberg & Pyszczynski, 1985). Então, dessa forma, se eu fizer um
experimento hipotético e colocar um parceiro em contato (a) com ex-parceiros da
atual namorada, (b) com muitas pessoas do sexo oposto e realmente atraentes
para os parceiros, supondo que o namorado seja heterossexual, ou do mesmo sexo,
no caso do parceiro ser homossexual, (c) verificar como o parceiro reage quando
o parceiro deste está sendo flertado por uma outra pessoa que não seja ele.
Provavelmente, esta pessoa exibirá o mesmo grau de ciúme em todas essas
situações, seja este grau alto, médio ou mesmo baixo.
Em contraposição, os ciumentos situacionais são
aqueles em que o grau de ciúme varia, para a mesma pessoa, quando exposta a
situações diferentes (Bryson, 1977; Shackelford,
Leblanc & Drass, 2000). Para ilustrar, em relação aos mesmos
exemplos citados anteriormente, algumas pessoas poderiam reagir com mais ciúme
a uma abordagem de uma pessoa que flertasse com o parceiro dela, dependendo de
quem a mesma fosse. Supondo que ela fosse mais bonita e mais rica - isso
poderia causar maior inquietação no parceiro que está visualizando/percebendo
esta cena. Contudo, a pessoa pode reagir de uma forma mais amena em relação à
aproximação de ex-parceiros do parceiro atual porque confia muito no próprio
relacionamento. Outras pessoas ainda, podem se sentir indiferente ao fato que o parceiro por motivos laborais está compelido a
trabalhar em um local nas condições anteriormente citadas. Em geral, podemos
dizer que enquanto os homens ciumentos são mais provavelmente ameaçados
por ameaças de infidelidade sexual, as mulheres são mais ameaçadas pela
infidelidade afetivas (Buss, Larsen, Westen & Semmelroth, 1992; Buunk et
al, 1996; Wiederman & Allgeier, 1993; Wiederman & Kendall, 1999).
Em relação à infidelidade, e embora não exista uma
a teoria que discorra a este respeito, podemos pensar que a infidelidade também
pode se influenciar por forças situacionais ou disposicionais de modo análogo
ao que ocorre com questão da infidelidade.
2.2.8 O ciúme e a
infidelidade na cultura brasileira.
Em
relação ao ciúme, como dito anteriormente, en passant, para o contexto brasileiro, muitos dos que são
objeto de ciúme, dependendo do grau e de acordo com seus históricos de vida,
sentem-se lisonjeados em granjear este tipo de atenção para elas.
Em relação à infidelidade, existe em
nosso país uma frase que sintetiza o nosso repúdio à infidelidade: “Lavar a honra com sangue”, isto é, dar
vazão aos comportamentos mais violentos quando vítimas da infidelidade,
inclusive nos achando no direito de subtrairmos a vida de um outro ser humano.
E, até recentemente esta atitude era legitimada perante os tribunais
brasileiros (Hatfield & Rapson,1996; Johnson, 1998; Page, 1995).
Ao
realizar uma pesquisa com 80 pessoas, Dela Coleta, SantaMarina e Castro (1986,
citado por Dela Coleta, 1991) procuraram investigar atribuições de causas a eventos naturais e acidentais.
Para as causas relacionadas ao fracasso no casamento foram apontados em
primeiro lugar o desamor, a desunião e a irresponsabilidade, seguindo-se as
brigas, os ciúmes, várias características negativas atribuídas à mulher e a
incompatibilidade de gênios.
Ades
(2003), investigando o ciúme de brasileiros, descobriu, dentre outras coisas, que o país com maiores diferenças
entre os ciúmes de homens e mulheres é o Brasil, sendo os homens brasileiros
muito mais ciumentos. Talvez em países com altas taxas de fertilidade, como o
Brasil, os homens sejam mais propensos a manifestarem graus elevados de ciúme
frente à infidelidade sexual das mulheres. Neste mesmo estudo, o autor chegou à
conclusão de que os homens expressavam mais perturbação que as mulheres em
relação ao ciúme sexual, em oposição ao ciúme emocional, o que confirma os
estudos de Buss (2000). O estudo de Ades (2003) também observa que os homens
são os que têm uma maior probabilidade de retaliarem os seus rivais
especialmente em se tratando de uma infidelidade sexual.
De acordo com Guerra (2004), em um levantamento
bibliográfico realizado na Universidade Federal de Uberlândia, o qual abordava
os temas de violência conjugal e violência intrafamiliar, no Brasil o ciúme
desponta como a principal causa aparente da violência. Ainda neste estudo, dos
115.000 processos criminais analisados (todos referentes ao ano de 1995), do
Tribunal de Justiça de Minas Gerais, 15% destes eram crimes contra a mulher e,
na maioria dos casos, o réu era o marido ou um parceiro amoroso.
Segundo
a literatura cientifica o ciúme é expresso de modo diferente por homens e
mulheres (Desteno & Salovey, 1996; Harris, 2005; Sagarin, 2005;
Shackelford, Buss & Bennett, 2002). O estudo de Kebleris e Carvalho (2006)
sugere que as mulheres reagem ao ciúme de uma maneira mais intensa do que o
homem, ou, ao menos, percebe suas reações como mais intensas do que o homem
percebe suas próprias reações, ao ciúme (Kebleris & Carvalho, 2006).
Ressalta-se que este estudo contou com a participação de 577 sujeitos embora
não descreva quantos deles eram homens e mulheres.
3 - O CIÚME
NO ÂMBITO DOS RELACIONAMENTOS INTERPESSOAIS AMOROSOS.
O ciúme romântico não
somente é um dos mais importantes temas que envolvem os relacionamentos
humanos, bem como um desafio para muitos destes. Dentro de certos limites, o
ciúme pode constituir uma demonstração de preocupação e de interesse pelo
outro, e sinalizar um reflexo do seu amor. Grande parte das pessoas, quando
questionadas a respeito do ciúme, afirma que ele faz parte do relacionamento,
servindo para apontar a necessidade de despender um cuidado maior ao outro.
Evidentemente,
o ciúme implica em certo cerceamento do outro, porque o parceiro ciumento, de
algum modo, interfere no comportamento do outro e em sua liberdade, tornando-se
possessivo e controlador. Contudo, quando não há nenhum sinal de ciúme, deve-se
ficar igualmente em alerta, e examinar se a relação não está se desgastando, e,
portanto, tornando-se sem amor, o que pode transformar este relacionamento
amoroso em uma relação com características fraternas (Ferreira-Santos, 1998).
3.1 As associações entre
o amor, o ciúme e a baixa auto-estima.
Pines & Aronson (1993) observaram que as crenças que as
pessoas carregam a respeito do ciúme influenciam suas experiências em relação a
ele. E é por isso que alguns vão identificá-lo como uma reação que sinaliza o
amor, enquanto outros o reconhecerão como um monitoramento invasivo para suas
privacidades. Hintz (2003) coloca que por mais inerente que seja ao ser humano,
o ciúme traz ao indivíduo experiências de sofrimento e dor, tanto para si como
para o objeto de seu ciúme, podendo ser entendido como a expressão de
dependência, insegurança, medo de perda. Dessa forma, quanto mais baixa for a
auto-estima, mais drasticamente o indivíduo sofre e, conseqüentemente, pode
chegar a duvidar de si mesmo como sendo alguém que merece respeito.
Como foi afirmado anteriormente,
muitas pessoas não conseguem dissociar o ciúme do amor, por talvez
encará-lo como uma manifestação de zelo ou mesmo de preservação da relação
valorizada. Existem evidências sobre esta associação: a quantidade de pessoas
que sente ciúme quando ama é elevada (Greenberg & Pyszczynski,1985).
Todavia, podem existir diversos relacionamentos amorosos, com diversificadas
manifestações para o ciúme diferindo em seus graus de apresentação para os
mesmos. Assim, o que se pode dizer é que há diferentes formas de se amar e
diferentes formas de se sentir ciúme, e todas elas são legítimas (Almeida,
2005). Mas, a primeira vista, para tais pessoas sentir ciúme é uma contingência
quase inevitável do sentir amor (Ferreira-Santos, 1998).
Também, ao se tratar de
ciúme, vê-se que há uma tênue linha divisória entre o que vem a ser imaginação,
fantasia, crença e certeza. Dessa forma, no ciúme as dúvidas podem se
transformar em preocupações hiperdimensionadas, ou ainda, francamente
delirantes. Depois das idéias provocadas pelo ciúme, a pessoa é compelida à
verificação compulsória de suas dúvidas. As dúvidas pairam em torno de um mesmo
eixo: o medo do parceiro(a) ser infiel. Dessa forma, as pessoas ciumentas estão
em constante busca de evidências e confissões que confirmem suas suspeitas da
infidelidade do(a) parceiro(a), mas ainda que a honestidade seja confirmada
cabalmente pelo(a) companheiro(a), essa inquisição permanente se retro-alimenta
e ainda traz mais dúvidas ao invés de lhes dar paz. Depois da capitulação, a
confissão do companheiro(a) nunca é suficientemente detalhada ou fidedigna, e
tudo volta à torturante inquisição anterior. De acordo com o autor
Ferreira-Santos (1998), consequentemente, a vivência da angústia,
característica notadamente presente no ciumento, deriva da seguinte
ambigüidade: sou ou não traído? É ou não é verdade o que esta pessoa me diz?
As crenças que dão
margem ao ciúme que as pessoas carregam provavelmente se devem ao fato de haver
intensas dúvidas, inseguranças e uma baixa auto-estima que povoam seus mais
íntimos pensamentos e fazem com que vivam constantemente prevendo a rejeição e
o abandono (Rosa e Ramos, 1999, citado por Ramos, 2000). Para uma pessoa com
auto-estima baixa, as dificuldades transitórias podem ameaçar a sensação de
segurança na relação, levando a repulsa do parceiro antes que possa ser
rejeitada (Murray, Holmes & Griffin, 2000). Desta forma, segundo Murray,
Holmes e Griffin (2000), pessoas com baixa auto-estima podem procurar
evidências de que seus parceiros estão infelizes com o relacionamento e, quando
as encontram, podem criticar os companheiros como resposta de seu estado
emocional.
Em contrapartida, não
devemos nos esquecer que o ciúme também pode ser engendrado por pistas reais da
infidelidade de um parceiro identificadas e recolhidas pelo outro (Shackelford
& Buss, 1997). Outras vezes, as pessoas sentem ciúmes porque se sentem negligenciadas
pelo parceiro(a) e vêem que a outra pessoa recebe a consideração que tanto
queriam (Branden, 1998).
3.2. O ciúme preventivo
e o retaliador.
O
ciúme pode ter funções protecionistas para o relacionamento, preventivas e
retaliadoras, e quando suas manifestações são desproporcionais ao estímulo
gerador pode ser disfuncional e considerado como uma psicopatologia, nomeada,
assim, de ciúme patológico. É interessante observarmos que, ao mesmo tempo em
que visa proteger o amor, o ciúme é um mecanismo capaz de destruir o
relacionamento, dependendo de sua intensidade, freqüência e de alguns
comportamentos a ele relacionados (Ramos & Calegaro, 2001; Kebleris &
Carvalho, 2006). São freqüentes as relações citadas na literatura entre o
ciúme, violência, homicídios e agressões de modo geral. Ele também é um dos
fatores mais comuns em terapias de casal e em psicoterapias individuais.
Segundo
Sayão (1998), os ciumentos quase sempre caminham para a ruptura com o ser amado
e para a solidão. Desta forma, sentimentos de posse e medo (da perda da
exclusividade, da ameaça da entrada de uma terceira pessoa na relação),
mesclam-se para forjar o ciúme. Mas, em geral, as atitudes dos ciumentos acabam
por afastar, cada vez mais, o ser amado. Afinal, quem gosta de ser vigiado e
submetido ao ridículo, pelos mais infundados pensamentos encobertos a
manifestações públicas e desmedidas de tal sentimento?
Entretanto, o ciúme não teria somente funções
negativas, ou seja, o ciúme se prestaria também como um mecanismo instalado a
serviço da manutenção dos relacionamentos amorosos ao invés de apenas separar
os casais. Contudo, se um dos parceiros se engaja em comportamentos de
infidelidade, o ciúme pode ter uma outra função, a retaliadora. Dessa forma, o
ciúme retaliador é aquele que impõe conseqüências negativas ao parceiro infiel
após a infidelidade deste. Conseqüentemente, ao hostilizar o parceiro que o
ciumento acredita ser infiel, este acredita evitar o desgaste da relação, ou
mesmo inibir infidelidades futuras ou em andamento. O ciúme pode ter também,
uma característica preventiva, embora os dois tipos de ciúme teriam uma função
protecionista para o relacionamento amoroso. Nas palavras de Almeida[1]
(2005): “O ciúme preventivo faz com que a pessoa, ao perceber que pode estar
perdendo o parceiro, passe a investir mais em si e no relacionamento”. Dessa
forma, quando ativada a função protecionista do ciúme os parceiros podem passar
a ser mais gentis uns com os outros, cuidar mais de si mesmos e demonstrarem o
amor que sentem de inúmeras formas, indiretamente, pretendendo afastar
possíveis rivais que possam oferecer recursos iguais ou melhores que os que
estão sendo disponibilizados por eles (Salazar, Couto, Gonçalves &
Pereira,1996).
3.3. A lógica das pessoas ciumentas.
No momento em que a pessoa tenta expressar as
razões de seu ciúme, ela começa a selecionar argumentos que o fundamentariam,
em detrimento de outros dados que, porventura, venham a se opor sobre o
raciocínio confeccionado por ele(a) próprio(a), a ponto de comprovar para si
mesmo(a), segundo Botura (1996), que está sendo preterido no relacionamento.
Então, como o ciumento teme, a qualquer momento, vir a receber a dolorosa
notícia de que será deixado pelo ser amado, o que faz com que ele
constantemente sinta-se ameaçado. Assim, passará a selecionar e colecionar
dados que fortifiquem a sua hipótese de que iminentemente sofrerá uma
infidelidade. Na literatura machadiana, especialmente no clássico Dom Casmurro,
fica bem ilustrado um comportamento desta fase: o ruminar (Assis, 1987).
Cavalcante (1997) aponta que o ciumento morbidamente rumina detalhadamente na
conflituosa tentativa de encontrar evidências para suas angustiantes
expectativas.
Em concordância com esta idéia,
Dunker (1995) afirma que a pessoa ciumenta é, em princípio, uma meticulosa
pensadora, no sentido de ruminar pequenos detalhes, de reparar nas menores
inflexões no tom da voz, ou mesmo, de atentar a palavras que indiquem atos
falhos para o(a) parceiro(a) e, desta maneira, fica armada e pronta a
conjecturas. Nas palavras de Ramos: “assim, quanto mais ciúme, mais método,
mais rigor, mais engenhosa a reflexão” (Ramos, 2000, p. 76).
Muito do que se disse até agora
foi para ressaltar o ciúme irrealístico, ou seja, aquele fundamentado em
vestígios de algo que se acredita ser uma infidelidade concreta por parte do
ciumento. Contudo, há ainda a possibilidade de se haver uma infidelidade em
andamento, e haver realmente a detecção de tais indícios por meio do mecanismo
do ciúme. Neste caso, imbuído de sua função protecionista, o ciúme tentaria
assegurar ao ciumento o(a) parceiro(a) do relacionamento que se quer preservar
ou a não investir mais seu tempo e recursos em uma relação desvantajosa para
ele. Os rivais neste caso podem ser ex-namorados(as) ou mesmo pessoas neutras como amigos(as) de
trabalho que passam a ser amorosamente ou sexualmente significativas na vida
das pessoas em quem investimos nosso tempo e sentimentos.
Bringle (1991) afirma
que a percepção se constitui num processo, no qual as expectativas perceptuais
da pessoa se combinam com as informações sensoriais do ambiente social para
constituir a configuração da percepção final. Em outras palavras, a pessoa
injustamente acusada de estar traindo o parceiro pode começar a se comportar
como se o estivesse mesmo fazendo, experienciando sensações e percepções
anteriormente inexistentes e se aproximando amiúde dos comportamentos das quais
fora acusada. Em contrapartida, Ramos (2000) indica que se as circunstâncias
ideais de observação, inerentes ao estímulo e às condições mediadoras, forem
restabelecidas e a suspeita da infidelidade do(a) parceiro(a) for considerada
infundada, logo, o ciúme tende a se extinguir.
Muitos
autores, dentre os quais Amélio (2001; 2005), Hintz (2003), Salazar, Couto,
Gonçalves e Pereira (1996) e Shackelford e Buss (1997), argumentam que o ciúme
pode ser como um sinal apontando para algo que não está bem na relação, podendo
ser a intromissão de um terceiro, interferindo indiretamente ou diretamente na
estabilidade da díade constituída, ratificando o desejo do indivíduo de que
seu(sua) parceiro(a) não tenha outro envolvimento emocional ou sexual. Pode-se
entender, dessa forma, o ciúme como sendo um mecanismo protetor da relação,
alertando a parte afetada sobre o perigo que a relação amorosa valorizada está
passando.
4 – A INFIDELIDADE
AMOROSA.
O estudo de Treas & Giesen (2000)
verificou que noventa e nove por cento das pessoas casadas esperavam a
exclusividade sexual do parceiro depois da consumação do matrimônio. Apesar
dessas expectativas, a ocorrência atual de infidelidade, sobretudo matrimonial,
é muito alta (e.g. Feldman & Cauffman, 1999). A infidelidade que
pode ser definida como “um segredo sexual, romântico, ou envolvimento emocional
que viola o compromisso de um relacionamento exclusivo” (Glass, 2002, p.
489) que ocorre em 20 a 25% de todos os casamentos (Greeley, 1994; Laumann,
Gagnon, Michael & Michaels, 1994; Wiederman, 1997), e pode ter um número
significativo de efeitos deletérios em ambos os ambos os parceiros de um
relacionamento amoroso, seja este, caracterizado por vínculos mais estáveis ou
não (Amato & Previti, 2003; Beitzig, 1989; Kitson, Babri & Roach, 1985).
As infidelidades podem ser
classificadas em dois tipos: a infidelidade sexual e emocional. Segundo Ahrndt (2005)[2]
a infidelidade sexual é qualquer comportamento que envolve um contato sexual,
como beijar, toques íntimos, sexo oral, ou quaisquer outros tipos de relações
sexuais. Esta mesma autora concebe a infidelidade emocional como a formação de
um vínculo emocional para com o afeto para outra pessoa, e pode envolver
comportamentos tais como paquerar, marcar encontros, estabelecer conversações
íntimas, enamorar-se, ou ainda, apaixonar-se por uma outra pessoa que não o(a)
atual parceiro(a).
Muitos estudos mostram uma conexão
entre oportunidade e infidelidade (Greeley, 1994; Traeen & Stigum, 1998;
Treas & Giesen, 2000). Parceiros que têm mais chances para enganar mais
provavelmente o farão, especialmente se é improvável que o outro parceiro
descubra tal infidelidade. Estudiosos ainda identificam o lugar de trabalho e a
Internet como as duas principais zonas de perigo para os relacionamentos
amorosos serem lesados por uma possível infidelidade (Atkins, Baucom & Jacobson, 2001; Barnes, 2006;
Broderick, 1979).
Qualquer que seja o tipo de
infidelidade ela, freqüentemente, resulta em raiva, rebaixamento na
auto-estima, surpresa, desapontamento, dúvidas a respeito de si mesmo e
depressão (Cano & O’Leary, 2000; Carrera
& García, 1996; Mathes, Adams &
Davies, 1985; Radecki, Farrell & Bush, 1993; Sharpsteen, 1995) entre os traídos.
Com um espectro de elementos assim tão abrangentes e subjetivos a
infidelidade é um fenômeno complexo, que desafia uma investigação científica. Não é necessário estar envolvido em
um casamento para se experimentar a infidelidade. Todos os tipos de
relacionamento estão sujeitos a sua nefasta influência. Ainda pouco se sabe a
respeito de quais os indivíduos são mais suscetíveis a infidelidade, ou ainda,
sobre os contextos que a promovem. Provavelmente, o futuro de um relacionamento
não é totalmente regido pelos ditames de um contrato que se deposita sobre a
mão dos parceiros, mas pode estar, dentre outros fatores, na ênfase do
compromisso de exclusividade que se vivencia no dia-a-dia entre eles, e esta
pode ser uma escolha mútua, ou não. Devemos também nos lembrar que existem
instituições que contribuem para a fidelidade e infidelidade entre os parceiros.
Lusterman (1998) faz uma alusão bastante interessante que ajuda a entender o
que se concebe por compromisso de exclusividade entre os parceiros: “é como se
existisse uma cerca em volta do relacionamento com uma placa fora dela dizendo:
‘Mantenha-se afastado- propriedade privada’”(Lusterman, 1998, p. 4).
Existem evidências a respeito do papel que alguns
fenômenos exercem na indução da infidelidade, como a insatisfação no vínculo
com o parceiro (Glass & Wright, 1985; Treas & Geisen, 2000). Os
estudos ainda apontam que quanto mais baixos os níveis de satisfação que os
parceiros têm em um relacionamento amoroso, maior a probabilidade dos mesmos em
se engajarem em comportamentos de infidelidade. Os autores ainda apontam que
esta relação é um pouco mais forte em mulheres do que em homens, isto é,
mulheres mais insatisfeitas com seus parceiros tendem a trair mais (Glass
& Wright, 1985). Em contrapartida, outros estudos mostram que as causas da
infidelidade são bem mais complexas e variadas. Nos estudos apontados por
Lusterman (1998), Maheu & Subotnik (2001), Pittman (1994) e Spring (1996),
casos extraconjugais podem ocorrer tanto em casamentos felizes bem como nos
considerados problemáticos, sendo que em muitos casos podem sinalizar uma busca
intrínseca por sexo, amor, romance, ou todos estes fatores concomitantemente.
Estudos como os de Glass & Wright (1985) e de Thompson (1984) ainda
apontam que as mulheres são mais propensas que os homens a se envolverem em
aventuras emocionais relacionadas à infidelidade, enquanto que os homens, em
média, são mais propensos a se envolverem em aventuras sexuais explícitas.
Então,
a manutenção de um relacionamento pré-marital ou pós-marital não acontece
somente pela presença de elementos como amor e satisfação. Existem ainda situações
em que o amor, a paixão e a satisfação com o parceiro são indiscutíveis e, no
entanto, a estabilidade da relação é inapelavelmente precária.
Embora
seja mais fácil que quem trai não ama seu parceiro, este pensamento está muito
longe da realidade. Para algumas pessoas a infidelidade é a resposta possível a
uma situação de insatisfação que encontram dentro do relacionamento. Ainda que
represente uma saída condenável (de acordo com os referenciais dos parceiros),
o início de uma relação infiel está mais próximo da incapacidade para resolver
os problemas do casamento do que da falta de amor. Contudo, nem todas as
pessoas que se engajam em infidelidade são caracterizadas por terem uma paixão
avassaladora pela terceira pessoa. A saturação e o desgaste no relacionamento
podem abrir espaço para a entrada de uma nova pessoa. A novidade da relação,
baseada na sobrevalorização das qualidades e na subvalorização dos defeitos,
confere o revigoramento que anteriormente parecia perdido, mas que pode,
também, dar lugar a sentimentos de culpa fortíssimos. Assim, conforme dito
anteriormente, e na acepção empregada neste trabalho, não existem evidências de
que somente o amor e a satisfação entre os parceiros sejam suficientes para
predizer a estabilidade nos relacionamentos amorosos (Buss & Shackelford,
1997; Cate, Levin & Richmond, 2002; Conger & Bryant, 1999; Gerhard
& Schneewind, 2002; Meeks, Hendrick & Hendrick, 1998), muito embora se
acredite que eles sejam também importantes para que aconteça comprometimento. Segundo Gottman e Silver
(1998), os fatores que podem fazer com que um relacionamento seja preservado,
ou não, estão longe de serem suficientemente identificados.
Assim,
muitos são os fatores envolvidos tanto na permanência dos parceiros numa
relação, bem como no rompimento da mesma (Branden, 1998; Lemos, 1994;
Rodrigues; Assmar & Jablonski, 1999; Viscott, 1996).
Muitas pessoas entram em contato com a infidelidade
das mais diversas formas: ora são, foram, ou serão afligidos pela infidelidade
de seus parceiros, ou ainda, poderão abalar a estrutura dos relacionamentos
valorizados, sendo infiéis aos compromissos assumidos. Algumas pessoas ainda
afirmam que, uma vez descoberta a infidelidade, o relacionamento amoroso pode
reestruturar-se de tal forma que fica ainda mais forte do que antes dela
acontecer. Em se tratando de infidelidade matrimonial, consoante Larrañaga
(2000), a infidelidade é sintoma de que algo não vai bem ao matrimônio. Devido
a isso os cônjuges buscam aventuras amorosas porque procuram aquilo de que lhes
falta em seu próprio relacionamento. Pela falta de afetividade ou sexo, partem
em busca do novo. Assim, quando os cônjuges não se dispõem a abordarem os
problemas que se arrastam há anos, tendem a buscar experiências extraconjugais,
ainda que passageiras, porque acreditam que elas podem constituir-se em meio
eficaz para aliviar tensões e angústias e que, por esse caminho, poderiam até
encontrar soluções para os problemas não resolvidos da intimidade (Menezes,
2005).
Para outros casais a infidelidade é o
prelúdio de um divórcio, ou mesmo, de uma ruptura do casal constituído,
qualquer que seja este. Etimologicamente, a palavra infidelidade remete à
quebra da verdade (Lusterman, 1998). As pessoas quando se casam prometem para
seus amigos, parentes, para o Estado e, em muitos casos, diante de Deus, que
elas permanecerão fiéis ao outro cônjuge até que a morte os separe, através de
votos implícitos e explícitos. Os cuidados declarados na fórmula matrimonial
civil ou religiosa espelham os votos explícitos para com os parceiros. Para
Ilustrar um voto não explícito verbalmente, cada membro do casal de fato
promete que permanecerá sexualmente exclusivo um ao outro, até que se faça
futuramente um outro acordo mais conveniente para ambas as partes. Então, Lusterman
(1998) diz que a infidelidade ocorre quando um parceiro continua a acreditar
que o acordo para ser fiel ainda vigora, enquanto o outro parceiro o está
secretamente violando. Percebe-se, assim, que se instala uma assimetria entre
traídos e traidores, que poder perdurar indefinidamente.
Quaisquer
que sejam as situações, podemos perceber que, em algum ponto, a infidelidade e
o ciúme se entrecruzam, e o ciúme, mesmo por definição, é uma reação que também
sinaliza a infidelidade amorosa. Embora isso aconteça, vemos que poucas
pesquisas se ocupam, em seu escopo, em tematizar e estudar tal relação. Dessa
maneira, neste estudo, vamos verificar como estes conceitos estão relacionados
e como eles repercutem na dinâmica dos relacionamentos interpessoais amorosos.
Até o
momento, não foi encontrado pelo autor desta pesquisa nenhum estudo que
procurasse descrever, de uma maneira ampla e objetiva, quais seriam as relações
e incidências da “infidelidade amorosa” e “ciúme romântico”. Diante do exposto,
este estudo procurou preencher esta lacuna ao tentar identificar e ordenar, por
meio de um conjunto de análises correlacionais, algumas relações funcionais
entre o ciúme romântico e a infidelidade amorosa.
O
presente estudo pretende examinar evidências de que as relações entre os
comportamentos relacionados à infidelidade e o ciúme romântico apresentam
características diferentes daquelas geralmente preconizadas pelo senso comum.
Por meio de um levantamento da literatura científica existente a respeito do
ciúme e da infidelidade pôde-se confeccionar um inventário de comportamentos
relacionados à infidelidade que permitiu investigar, de forma sistemática, as
relações existentes entre estes dois fenômenos em casais de namorados.
Posto
isso, este trabalho tem como objetivos:
·
Realizar um levantamento dos
comportamentos de infidelidade por meio: (1) da revisão da literatura
científica sobre o assunto; (2) a partir da citação
de exemplos apresentados por parte da amostra dos voluntários participantes da
pesquisa para a construção e validação do instrumento; (3) de comportamentos
ouvidos por este autor em atendimentos clínicos como relacionados à
infidelidade, ouvidos;
·
A partir disso,
catalogar estes comportamentos, e transformá-los em um inventário útil, que
permita diagnosticar a freqüência de ocorrência de comportamentos de
infidelidade entre os participantes da amostra, e que possa ser usado em outras
pesquisas;
·
Identificar, por
meio das análises a ser realizadas, quais são os comportamentos relacionados à
infidelidade que mais aparecem para os homens e mulheres dos participantes da
amostra;
·
Identificar, por
meio das análises a ser realizadas, quais são as possíveis relações existentes
entre os comportamentos relacionados à infidelidade e os escores de ciúme para
os participantes da amostra;
·
Identificar se o
ciúme dos de cada um dos parceiros está relacionado no ciúme do outro parceiro,
ambos participantes deste estudo;
·
Identificar se a
infidelidade de cada um dos parceiros está relacionada à infidelidade do outro
parceiro, ambos participantes deste estudo;
·
Identificar outras
possíveis variáveis que possam interagir com o ciúme romântico e com a
infidelidade amorosa.
A fim de se verificar a influência de todos os fatores mencionados, elaborou-se um método para tentar arrolá-los. Passaremos, na seqüência, a ele.
[2] A concepção deste autor será adotada para este trabalho para distinguirmos os dois tipos de infidelidade e será retomada na seção dos resultados.