3.5  Outros fatores que foram pesquisados em relação ao ciúme e a infidelidade.

 

3.5.1 Notas físicas, Notas psicológicas, ciúme e infidelidade.

 

                   As pesquisas até o presente momento concentraram-se em questionar os seus participantes sobre as percepções que os mesmos têm de si mesmos e em relação aos seus parceiros, em relação aos seus atributos físicos. Contudo, uma pessoa possui uma grande quantidade de atributos físicos e psicológicos, por assim dizer. Dessa forma, um desdobramento deste estudo também coletou dados sobre o que eu denominei de “Notas Psicológicas (para si ou para o outro)” para vários atributos da personalidade do parceiro e do próprio participante tal como temperamento, que não estivesse relacionado a algum aspecto físico propriamente dito. Pensando sobre uma possível associação entre as notas (físicas[1] e psicológicas[2]) que as pessoas se atribuem e como avaliam seus parceiros, e os índices de ciúme e de infidelidade que expressam, obtivemos as seguintes correlações:

·         Correlação entre as variáveis “Nota física para si” e “Infidelidade dos atuais parceiros na primeira etapa” = 0,129, com p = 0,23;

·         Correlação entre as variáveis “Nota física para si” e “Infidelidade dos atuais parceiros na segunda etapa” = -0,261, com p = 0,01;

·         Correlação entre as variáveis “Nota psicológica para si” e “Infidelidade dos atuais parceiros na primeira etapa” = 0,113, com p = 0,29;

·         Correlação entre as variáveis “Nota psicológica para si” e “Infidelidade dos atuais parceiros na segunda etapa” = 0,002, com p = 0,99;

·         Correlação entre as variáveis “Nota física para o outro” e “Infidelidade dos atuais parceiros na primeira etapa” = 0,141, com p = 0,19;

·         Correlação entre as variáveis “Nota física para o outro” e “Infidelidade dos atuais parceiros na segunda etapa” =-0,077, com p = 0,47;

·         Correlação entre as variáveis “Nota psicológica para o outro” e “Infidelidade dos atuais parceiros na primeira etapa” = 0,084, com p = 0,43;

·         Correlação entre as variáveis “Nota psicológica para o outro” e “Infidelidade dos atuais parceiros na segunda etapa” =-0,125, com p = 0,24;

·         Correlação entre as variáveis “Nota física para si” e “Ciúme dos atuais parceiros na primeira etapa” = -0,034, com p = 0,75;

·         Correlação entre as variáveis “Nota física para si” e “Ciúme dos atuais parceiros na segunda etapa” = -0,037, com p = 0,72;

·         Correlação entre as variáveis “Nota Psicológica para si” e “Ciúme dos atuais parceiros na primeira etapa” = 0,111, com p = 0,30;

·         Correlação entre as variáveis “Nota Psicológica para si” e “Ciúme dos atuais parceiros na segunda etapa” = 0,073, com p = 0,50;

·         Correlação entre as variáveis “Nota física para o outro” e “Ciúme dos atuais parceiros na primeira etapa” = -0,217, com p = 0,04;

·         Correlação entre as variáveis “Nota física para o outro” e “Ciúme dos atuais parceiros na segunda etapa” = -0,205, com p = 0,05;

·         Correlação entre as variáveis “Nota Psicológica para o outro” e “Ciúme dos atuais parceiros na primeira etapa” = -0,140, com p = 0,19;

·         Correlação entre as variáveis “Nota Psicológica para o outro” e “Ciúme dos atuais parceiros na segunda etapa” = -0,149, com p = 0,16.

 

 

 

3.5.2 O comprometimento amoroso em relação as variáveis deste estudo.

 

Vários pesquisadores concentram seus esforços para saber por que algumas relações duram e outras não. Uma das respostas a esta questão pode estar associada ao comprometimento, pois somente o amor não é preditor de estabilidade para relacionamentos amorosos. Para Gottman & Silver (1998) e Rusbult & Buunk (1993), os fatores que podem fazer um relacionamento dar certo ou desintegrar-se estão longe de serem óbvios.

Este estudo também procurou verificar como o fator comprometimento interagia com as demais variáveis testadas. Através da entrevista com o pesquisador deste estudo (Anexo 14), as pessoas poderiam reportar 3 graus diferentes de comprometimento afetivo segundo seus próprios critérios. 

Vejamos os resultados encontrados.

 

 

Figura 20 - Distribuição da variável “Comprometimento amoroso” para os dois sexos.

Legenda: 1 – representa o nível baixo de comprometimento declarado pelos respondentes.

                   2 – representa o nível médio de comprometimento declarado pelos respondentes.

             3 – representa o nível alto de comprometimento declarado pelos respondentes

 

Através da entrevista com o pesquisador deste estudo (Anexo 14), as pessoas poderiam reportar 3 graus diferentes de comprometimento afetivo segundo seus próprios critérios.  Analisando a Figura 21, temos que aproximadamente 52% (29% das mulheres e 23% dos homens) dos casais pertencem à classe 3, ou seja, ao comprometimento 3 (alto).  Pela mesma figura podemos observar que 27% (13% das mulheres e 14% dos homens) pertencem à classe 2, ou seja, ao comprometimento 2 (médio), e ainda, podemos verificar também pela Figura 21 que 20% (8% das mulheres e 12% dos homens) pertencem à classe 1, ou seja, ao comprometimento 1 (baixo).

Então, procedeu-se a aplicação do teste correlacional de Pearson, para verificar possíveis associações entre os graus de comprometimento e os graus de ciúmes e graus de comprometimento e freqüências de infidelidade. Então, obtiveram-se os seguintes dados:

·         Correlação entre “Comprometimento” e “Ciúme I” = 0,06, com p = 0,56;

·         Correlação entre “Comprometimento” e “Ciúme II” = 0,15, com p = 0,17;

·         Correlação entre “Comprometimento” e “Idade” = 0,27, com p = 0,01;

·         Correlação entre “Comprometimento” e “Infidelidade I” = 0,11, com p = 0,29;

·         Correlação entre “Comprometimento” e “Infidelidade II” = 0,06, com p = 0,56;

·         Correlação entre “Comprometimento” e “Infidelidade III” = 0,05, com p = 0,66;

·         Correlação entre “Comprometimento” e “Infidelidade IV” = -0,03, com p = 0,79.

 

IV- DISCUSSÃO

 

Neste terceiro milênio, muitas questões antigas estão cada vez mais sendo discutidas e reavaliadas pela sociedade de forma dinâmica e suas respostas exigem mudanças urgentes nos comportamentos da sociedade em relação a alguns fenômenos com os quais as pessoas se deparam desde a mais tenra infância. Um destes pontos a ser tematizados é o ciúme em seus diversos graus e formas de expressão.

Um outro ponto questionado e constantemente reformulado é a temática da infidelidade para os relacionamentos amorosos. Entre a fidelidade e a liberdade, como questiona Beauvoir (1995) citada por Goldenberg (2006), haveria uma conciliação possível? Percebemos que também, a exemplo do ciúme, na infidelidade também há uma distância entre discursos e comportamentos evidenciada por Goldenberg (2006).  Este estudo avaliou as associações entre ciúme e infidelidade, dentre outros fatores que podem acarretar conseqüências positivas e negativas para os relacionamentos amorosos.

Em relação ao ciúme pode-se verificar nesta pesquisa que se obteve uma alta fidedignidade teste-reteste (r = 0.88). Em relação a nossa amostra, a metodologia aplicada não permitiu discriminar se os ciúmes exibidos pelos participantes estariam mais influenciados por forças situacionais ou disposicionais.  O que se pode inferir é que, algumas pessoas, segundo o que aponta a literatura, é que o ciúme sofre a influência destes dois fatores está a serviço da preservação dos relacionamentos amorosos (Bringle, 1981).

O ciúme na mulher apresenta-se como o medo de ser abandonada, trocada por outra mulher. Seu maior desejo é ser amada e ser a única para seu parceiro. Esta tendência estaria relacionada a padrões evolutivos do comportamento (Buss, 2000; Fisher, 1995). Ela expressa seu ciúme de forma mais clara e aberta. Quando é preterida, sente-se isolada, insegura, com sentimentos de baixa auto-estima. Muitas vezes, ela, ao expressar ciúme, deseja demonstrar quanto o seu amor é verdadeiro. O homem manifesta seu ciúme pelo medo de perder o poder, o domínio. Quando preterido, sente-se humilhado e fracassado em manter a posse. Ele receia que o vejam como alguém inferior, desacreditado (Echeburúa & Femández-Montalvo, 2001; Ferreira-Santos, 1998). A partir dos dados analisados, pode-se sugerir que, para a nossa amostra, o sexo feminino tem tendência a ter menos ciúme que o sexo masculino (o valor do teste entre o Ciúme I (feminino) versus Ciúme II (masculino) foi de 2,11; p = 0,038 para 88 gl; o valor do teste entre o Ciúme II (feminino) versus Ciúme I (masculino) foi de 2,12; p = 0,037, para 88 gl; o valor do teste entre o Ciúme II (feminino) versus Ciúme II (masculino) foi de 2,32; p = 0,023, para 88 gl). Este resultado diverge da literatura encontrada como em García, Gómez & Cantó (2001), Kebleris & Carvalho (2006), Sagarin & Guadagno (2004) e Mullen & Martin (1994), somente para citar alguns estudos, que nos apontam o sexo feminino como tendo mais ciúme do que o sexo masculino.

 Porém, não há um consenso entre os autores acerca desta questão, levando-se em consideração que diversos experimentos realizados por diferentes autores obtiveram diferentes resultados. Há que se ressaltar que o mito social pode nos encaminhar para o pensamento de que as mulheres seriam mais ciumentas que os homens. Todavia, este julgamento talvez resulte de uma falsa interpretação dos fatos. Somente para ilustrar, crimes passionais cometidos por mulheres ciumentas atraem muita atenção da sociedade. Isso pode sugerir que as mulheres estariam mais sujeitas aos desatinos do ciúme. Contudo, na realidade, se verificarmos a verdadeira incidência de homicídios cometidos por ciúme, observaremos que a minoria são cometidos por mulheres. Também, um outro pensamento a favor de que as mulheres têm mais razões reais de ciúme é a idéia de que os homens são notoriamente infiéis. Em um outro estudo, André e Lelord (2002) apontam que os homens são mais ciumentos, sobretudo, da segurança e da determinação dos adversários, mais do que o aspecto físico, enquanto que as mulheres olham e competem contra o aspecto físico e suas rivais.

Especificamente em relação à infidelidade, pode-se observar que para as três análises estatísticas realizadas (infidelidade com ex-parceiros em função do sexo, infidelidade com atuais parceiros em sua primeira etapa em função do sexo, e infidelidade com atuais parceiros em sua segunda etapa em função do sexo), os homens traem mais do que as mulheres (teste W = 894,5, p < 0.0001; teste W = 826,0, p < 0.0001; teste W = 1496,5, p= 0.0001). Estes resultados são consistentes com a literatura que aponta que o maior fator preditor para a infidelidade ainda é o gênero, e mais especificamente para os autores Abdo, Moreira Jr. & Fittipaldi, (2000) e Goldenberg (2006). Contudo, é provável que em um futuro próximo esta preponderância masculina se altere devido à transformação do papel feminino. Antigamente, somente aos homens era conferido o direito de ser infiel, de tal forma que eles poderiam ter amantes e concubinas e as mulheres tinham que fingir que nada estava acontecendo. Atualmente, com uma maior independência feminina, estas incidências de infidelidade podem se equiparar ou mesmo superar as taxas de infidelidades masculinas.

Quando se considera as traições independentemente dos sexo dos participantes da pesquisa, verifica-se que alguns comportamentos de infidelidade  têm o mesmo “grau” de ocorrências  nas três etapas da pesquisa. Por exemplo, as afirmações 1[3], 2[4] e 26[5] estão entre as 4 de maior ocorrência em todos estes casos.

Como vimos anteriormente, muitos são os motivos e as conseqüências para aqueles que decidem engajar-se em comportamentos infiéis. Assim, pode-se observar pela presente pesquisa que, ao menos por ocasião da segunda etapa, a infidelidade masculina está correlacionada com a infidelidade feminina, ainda que de forma leve (r=0,364; 45 gl; p= 0,014). Dessa forma, podemos pensar que alguns daqueles que se engajam em comportamentos de infidelidade podem suscitar no outro parceiro motivações próprias para que este também se engaje em comportamentos infiéis. Ou ainda há a possibilidade de parceiros que têm tendência a trair, selecionar outros com esta mesma tendência. Outras possíveis  causas  para isso seriam  a diminuição da veracidade entre os próprios parceiros, e a tendência que as pessoas têm de retaliarem o parceiro quando descobrem a infidelidade, e daí conseqüentemente praticarem a infidelidade.

Pode-se verificar pela presente pesquisa que os escores de ciúme da primeira etapa estão correlacionados aos escores da infidelidade pelos parceiros por ocasião da segunda etapa (r= 0,248; 90 gl; p = 0,018). Assim, pode-se pensar que quanto maior o ciúme de cada um(a) dos(as) participantes, maior a chance deste(a) ser traída por seus(suas) parceiros(as). Inicialmente, foi hipotetisado nesta pesquisa que o ciúme, em graus elevados, de um parceiro estivesse relacionado ao aumento do engajamento do número de traições do outro parceiro, conforme preconizado pela teoria da profecia de auto-realização em relação à infidelidade do outro parceiro. Então, as pessoas não seriam inertes aos encontros amorosos interpessoais e também não estariam ilesas as expectativas ciumentas dos próprios parceiros. O outro teria a propriedade de modelar o nosso comportamento em uma situação amorosa interpessoal. Caso fosse confirmada a hipótese da profecia auto-realizadora, na segunda etapa, esperar-se-ia encontrar uma quantidade significativamente mais elevada de infidelidades por parte dos parceiros dos participantes mais ciumentos, ou ainda, que este casal prejudicado pelo ciúme excessivo tivesse se separado. Por meio de um raciocínio análogo, o autor deste trabalho pressupôs que se o ciúme, em graus diminutos, de um parceiro estivesse relacionado a uma redução no número dos comportamentos relacionados à infidelidade emitidos pelo outro, por ocasião da segunda etapa, ou ainda, o casal se mantivesse unido.

Desta forma, os resultados desta pesquisa sugerem que o ciúme, está associado à infidelidade amorosa tal como seria predito pela profecia auto-realizadora (Rosenthal & Jacobson, 1966; 1968; 1982). Outra hipótese é que aqueles que têm mais ciúmes leram antecipadamente os indícios de que o parceiro tinha propensões para a infidelidade. Algumas pessoas ainda podem questionar estes achados, alegando de que o instrumento empregado para esta pesquisa poderia ter um efeito reativo (ou de interação) entre a testagem e a variável experimental como nos colocam Campbell & Stanley (1979). Segundo este raciocínio, o pré-teste poderia ter influenciado a sensibilidade, ou ainda, a capacidade de induzir vigilância dos parceiros dos participantes em relação à variável experimental, o que tornaria cada um dos participantes mais atentos as traições que estavam em andamento e isso, comprometeria a validade interna do instrumento. Contudo, colocamos alguns argumentos que rebatam este questionamento. Primeiramente, se por um lado, o instrumento empregado nesta pesquisa tivesse induzido o comportamento de vigilância em cada participante, por outro lado, ele provavelmente deveria ter tido o mesmo efeito para que cada parceiro que estivesse engajado ou pensando em trair os parceiros escondesse ainda mais a própria infidelidade, ou mesmo traísse menos. Um outro fator muito importante é que a infidelidade do parceiro, embora possa sofrer algumas distorções, em termos numéricos, foi relatada pelos próprios perpetradores da infidelidade. Dessa forma, ela não é fruto da percepção dos parceiros, e sim, provavelmente, induzida por estes. Evidencia-se ainda, que certamente acreditamos que todos os instrumentos, em algum grau influenciam o comportamento dos pesquisandos de forma que não há um teste perfeito que não interfira com os resultados da pesquisa. Todavia, todos os cuidados possíveis foram tomados com vistas a possibilitar a redução deste viés experimental, tal como o sigilo das informações obtidas, o anonimato dos participantes, a coleta em salas, ou ainda, em momentos separados, dentre outras medidas.

Contudo, se o ciúme é um agente da profecia auto-realizadora da infidelidade, ainda que de forma fraca, e independentemente do sexo, alguns questionamentos permanecem em aberto tais como: podemos dizer que os homens têm sido mais infiéis ao longo do tempo (ou pelo menos os da nossa amostra), porque eles tiveram o seu comportamento infiel induzido por suas parceiras? Pela presente pesquisa, também, evidenciou-se que as mulheres foram menos ciumentas que os homens. Esperar-se-ia que se elas fossem mais ciumentas os homens fossem mais traidores? O ciúme ao longo da história foi apontado como um dos melhores mecanismos a serviço da preservação e da manutenção para os relacionamentos amorosos. Com os dados da presente pesquisa o ciúme adquire uma nova perspectiva onde ele, dependendo de sua dosagem, pode acarretar conseqüências negativas para os relacionamentos amorosos. Logo, qual é a dosagem ideal de ciúme para que este possa se ocupar de zelar pelos relacionamentos amorosos sem, no entanto, prejudicá-los? A etologia prediz que os homens são mais propensos a se engajar em comportamentos infiéis. Fundamentado-nos nos dados desta pesquisa podemos observar que as mulheres podem ter alguma contribuição no comportamento que elas reclamaram ao curso de muitos anos.

Esta pesquisa também se ocupou de procurar possíveis associações entre o ciúme e a própria infidelidade como predizia a teoria freudiana de um ciúme de natureza projetiva. Dessa forma, pudemos observar que, ao menos para o sexo masculino, os escores de ciúme (na primeira etapa) estão correlacionados de forma fraca e negativamente com os escores da infidelidade de cada um dos participantes (em ambas as etapas) (r = - 0,35 e r= - 0,37; p < 0,05). Entretanto, observamos uma associação perfeita entre os escores de ciúme feminino (primeira e segunda etapa) e os escores de infidelidade das próprias participantes, em ambas as etapas desta pesquisa. Logo, estes dados confirmam o que postulava a teoria freudiana acerca da natureza do ciúme projetivo para as mulheres, mas não para os homens (Freud, 1922/ 1976). Em outras palavras, o ciúme das mulheres está positivamente associado com suas próprias infidelidades, bem como as infidelidades dos próprios parceiros. Entretanto, o ciúme dos homens está positivamente associado com infidelidade das mulheres, mas não o contrário.

Ainda, em relação à infidelidade, muitas pesquisas têm sido conduzidas com o fito de tentar descobrir por que as pessoas traem umas as outras nos relacionamentos amorosos (por exemplo, Brown, 1991; Glass & Wright, 1992; Lawson, 1998; Lusterman, 1998).  A concepção de Viscott (1996) de infidelidade não se restringe somente a comportamentos sexuais realizados, mas é um conceito muito mais abrangente e se relaciona com o desejo, com o propósito e começa quando uma simples idéia foi posta em ação, por mais simples que esta seja. Dessa forma, o conceito de infidelidade amorosa pode representar muitas ações e situações distintas, sempre relacionadas ao fato de que a relação amorosa foi lesada pelo rompimento do compromisso de exclusividade. Esta concepção se aplica à infidelidade através da internet onde as pessoas podem se comunicar virtualmente com rapidez, e também podem se envolver com outra pessoa com tanta intimidade como se estivessem ao vivo. Então, as pessoas que podem se engajar em infidelidades através da rede internet (por exemplo, através dos chats ou e-mail), através de mensagens acionadas pelo celular, pelo pager, etc. A literatura nesta área relata que o item 2 do questionário sobre infidelidade usado na presente pesquisa:  Manter contatos virtuais como, por exemplo: bater papo em chats, receber e-mails por meio de sites de namoros, mensagens on-line etc, com outra pessoa que não seja seu(sua) atual parceiro(a)”  indica que a rede internet é um importante meio que propicia a infidelidade (Atkins, Baucom & Jacobson, 2001; Barnes, 2006). Pode-se inferir que a rede internet aumenta as oportunidades que as pessoas têm de se engajarem em comportamentos amorosos infiéis e dependendo da força da motivação de cada um e de outros fatores como, por exemplo, o andamento do relacionamento amoroso atual, que as pessoas consumem, de fato, suas traições.

Em relação ao primeiro item do questionário sobre infidelidade utilizado nesta pesquisa, o qual apresentou uma das maiores ocorrências da amostra, alguns poderão argumentar que se tratam de meros pensamentos e não atos consumados, mas ao partirmos da concepção de Viscott (1996), e de outros autores (por exemplo, percebemos que um dos pontos críticos para a infidelidade é que os perpetradores da infidelidade, ainda quando estão  em um estágio simplesmente cognitivo, como por exemplo, ao nível do pensamento, algumas vezes dão seqüência  aos seus pensamentos e têm uma disposição de assim, seguir adiante. É bastante comum surgir outras dúvidas pertinentes: qual é o limite para nossos pensamentos infiéis? Até onde se pode fantasiar? Embora seja, muito coerente tal questionamento, não existe uma única resposta que contemple todos os casos. Quando falamos sobre limites, é fundamental que cada casal converse sobre os seus, pois esta é uma medida muito pessoal. O desejável em um relacionamento amoroso seria que ambas as partes tivessem um entrosamento adequado que lhes permitisse discutir sobre seus pensamentos e fantasias, e assim, promover mutuamente uma maior liberdade de expressão e não provocar a insegurança no outro e transpor a barreira de uma desnecessária infidelidade.

Os resultados da presente pesquisa confirmam a concepção de Ahrndt (2005) que as mulheres cometem mais traições emocionais do que os homens tais como aquelas relatadas nos itens “1”, “2” o questionário que foi utilizado. Ainda segundo a concepção de Ahrndt (2005), em relação ao universo masculino desta amostra, percebemos que alguns itens como os “6”, “11”, “15”, “19”, “29” e “35”, embora não tenham sido muito citados pelos participantes, são itens cujos conteúdos semânticos estão diretamente relacionado com uma infidelidade sexual em potencial e tenham sido mais citados pelos participantes do sexo feminino. A partir disso evidencia-se que, tal como aponta a literatura desta área, as mulheres estão mais propensas a se engajarem em comportamentos relacionados à infidelidade, sobretudo, quando são de natureza emocional, enquanto que os homens estão mais propensos a se engajarem em comportamentos relacionados à infidelidade, sobretudo, quando são de natureza sexual (Buss, 2000; Glass & Wright, 1985 e Thompson 1984, dentre outros).

Os comportamentos não mencionados pelos participantes, como por ocasião da segunda etapa, como as afirmações 11[6], 24[7], 27[8], 31[9] e 33[10] não necessitam ser incluídos em um futuro estudo devido a sua ocorrência nula. Somando-se todas as traições mencionadas pelos participantes, aquela descritas nas questões 24, 31 e 33 estão entre aquelas  de menor ocorrência.

Um dos resultados mais robustos na literatura desta área  é que os homens são muito mais propensos que as mulheres para se engajarem em comportamento relacionados à infidelidade (Hansen, 1987; Wiederman & Hurd, 1999; dentre outros). Os presentes resultados também apoiam este achado geral: neste estudo os homens informaram um maior e mais significativo número de comportamentos relativos à infidelidade do que as mulheres.

Como verificado na presente pesquisa, o ciúme e a infidelidade têm diferentes manifestações. Observa-se isso por meio da grande quantidade de comportamentos de ciúmes e de infidelidade admitidos pelos participantes que responderam os questionários sobre o ciúme e sobre a infidelidade. As incidências dos tipos e manifestações do ciúme e da infidelidade também variaram bastantes indo de zero até 2108 ocorrências.

Também podemos observar que encontramos uma grande variação nos graus de ciúme para as duas etapas da pesquisa. Isso confirma a literatura como a de Breit, Im e Wilner (1983) que afirmam que cada pessoa apresenta uma suscetibilidade própria para o ciúme, fundamentada em fatos de sua experiência anterior que geraram a autoconfiança e sentimentos e valores. Estes resultados também sugerem que as pessoas idiossincraticamente apresentam suscetibilidades características para se engajarem em comportamentos relacionados à infidelidade.

A literatura científica tenta explicar como fatores relacionados à desejabilidade afetam os graus de ciúmes dos parceiros, isto é, quando pessoas são mais atrativas que seus parceiros, elas têm mais chances de evocarem ciúmes. Muitos autores descobriram que o parceiro mais desejável do casal seria o mais propenso a se desgarrar (Buss, 2000; Hill, Rubin & Peplau, 1976; Hatfield, Traupmann & Walster, 1979; Kenrick & Keefe, 1992; Thiessen & Gregg, 1980; Walster, Traupmann & Walster, 1978; Walster, Walster & Berscheid, 1978). Além disso, quanto mais semelhantes as diversas características de cada membro do casal, menores a chance de que os mesmos se separassem, e conseqüentemente, experimentassem as seqüelas decorrentes causados pelo processo da separação (Fischer, 2006; Vincent, 2005).

As pesquisas até o presente momento concentraram-se em questionar os seus participantes sobre as percepções que eles têm dos seus próprios atributos físicos. Na presente pesquisa só foram encontradas as seguintes relações estatisticamente significativas envolvendo a atração física: entre a Nota física para si” e “Infidelidade dos atuais parceiros” na segunda etapa da pesquisa (r= -0,261; p = 0,01), “Nota física para o outro” e “Ciúme dos atuais parceiros na primeira etapa” (r= -0,217; p = 0,04) e “Nota física para o outro” e “Ciúme dos atuais parceiros na segunda etapa” (r= -0,205; p = 0,05). Todas estas correlações fracas e negativas, com isso, pode se sugerir que:

(1)    A auto-atribuição das notas de atração física está inversamente correlacionada com os escores de infidelidade dos parceiros, Isto é, há uma tendência, ainda que fraca, de quanto maior cada participante se auto-atribuir um escore “Boa nota física para si” menor será o número de comportamentos relacionados à infidelidade de seu(sua) parceiro(a), ao menos, por ocasião da segunda coleta de dados desta pesquisa. Estes dados corroboram o que é citado na literatura desta área (Buss, 2000). Talvez, podemos inferir que o(a) parceiro(a) do(a) parceira, que se auto-atribui notas mais altas, é também percebido pelo(a) próprio(a) parceira como bem desejável, e neste caso, isso per se diminuiria as chances de um parceiro trair o outro. Esta inferência está de acordo com a posição da teoria etológica que postula que um dos principais fatores que motivam a infidelidade entre parceiro é a busca de parceiros e de genes melhores com vistas à um aperfeiçoamento e a preservação do próprio material genético por meio da prole gerada por aquele casal (Buss, 2000);

(2)    Os escores “Nota física para o outro”, que cada um dos participantes atribuem para seus(suas) parceiros(as)“, estão  inversamente correlacionados com os escores de  ciúme de cada participante, para ambas as etapas desta pesquisa. Em outras palavras, há uma tendência, ainda que fraca, de quanto maior cada participante atribuir para seu(sua) parceiro(a) uma maior nota, menor será o escore de ciúme, para ambas as etapas desta pesquisa. Este dado contradiz a literatura padrão e os resultados que foram encontrados até então, levando-se em consideração que costuma-se presumir que as pessoas que têm mais ciúme consideram que seus parceiros são mais desejáveis do que eles mesmos. Desta forma, seria esperado que os participantes que avaliassem parceiros como sendo mais desejáveis do que estes tivessem escores maiores de ciúme, contudo, isso não foi observado para esta amostra.

(3)    O conjunto de dados acima sugerem que não existe nenhuma correlação significativa para as variáveis “Nota Psicológica” (tanto em relação a si mesmo, como em relação ao parceiro, com as demais variáveis, seja na primeira, ou mesmo, na segunda etapa, listadas anteriormente). Dessa forma, nada pode se concluir com relação àqueles que se auto-atribuem notas superiores ou inferiores conquanto que os critérios adotados sejam os fatores psicológicos, em relação aos parceiros e em relação ao ciúme, ou mesmo no que diz respeito à infidelidade. Ressalta-se que não há literatura de referência para contrastar com este dado levando-se em consideração que a totalidade das pesquisas se enveredou por pesquisar os a desejabilidade dos fatores físicos em relação a outros aspectos tal como a infidelidade, por exemplo.

 



[1]  Portanto, “nota física” foi a notação empregada para caracterizar os participantes e seus respectivos parceiros(as) de acordo com os atributos físicos (tais como altura, peso, entre outros).  A tarefa dos  participantes para este item (itens 5 e 6 do Anexo 14) era opinarem sobre si mesmos e sobre como percebiam os(as) próprios parceiros(as), atribuindo nota de 0 a 10, onde 0 era a nota mínima e 10 era a nota máxima.

[2] Portanto, “Nota psicológica” foi uma notação empregada para caracterizar os participantes e seus respectivos parceiros(as) de acordo com os atributo psicológicos (tais como personalidade, temperamento, dentre outros). A tarefa dos participantes para  este item (itens 5 e 6 do Anexo 14) era  opinarem sobre si mesmos e  sobre como percebiam os(as) próprios parceiros(as), atribuindo nota de 0 a 10, onde 0 era a nota mínima e 10 era a nota máxima.

[3] Manter contatos virtuais como, por exemplo: bater papo em chats, receber e-mails por meio de sites de namoros, mensagens on-line etc, com outra pessoa que não seja o(a) atual parceiro(a).

[4] Ter pensamentos com outra(s) pessoa(s) que não sejam(m) o(a) atual parceiro(a), tais como estar beijando tal pessoa, ouvir/dizer frases de conotação amorosa, ou mesmo de natureza sexual.

[5] Permitir-se ser paquerado por outra pessoa, que lhe atraísse fisicamente, amorosamente ou sentimentalmente e que não seja o(a) próprio(a) parceiro(a), e mesmo assim, não deixar com que o(a) próprio(a) parceiro(a) tome conhecimento de que isso aconteceu.

 

[6] Ficar com uma outra pessoa, numa mesma noite, enquanto esta e o(a) atual parceiro(a), estivavam junto em um barzinho ou danceteria.

[7] Apresentar um(a) amigo(a) que beijava como se fosse um(a) primo(a) para que o(a) meu(minha) parceiro(a) não pudesse desconfiar disso.

[8] Simular uma briga com o(a) próprio(a) parceiro(a), ou ainda, pedir um tempo para somente para poder ficar com uma outra pessoa que não seja o(a) próprio(a) parceiro(a).

[9] Falar que precisava viajar a trabalho somente para ficar com uma pessoa que não seja o(a) meu(minha) próprio(a) parceiro(a) e que despertasse interesse físico, amoroso, ou ainda, sentimental.

[10] Mentir que estava com a própria família, e não fazer isso, somente para ficar com uma pessoa que não era o(a) próprio(a) parceiro(a) e que despertasse interesse físico, amoroso, ou ainda, sentimental.